segunda-feira, 17 de março de 2014

As consequências de um ato

Minha mãe sempre me deixou bem claro que o que quer que eu fizesse traria consequências, mesmo que eu escondesse. Aliás, esconder um ato - por si só - já traria consequências específicas. Especialmente se eu escondesse dela..

Vivi minha vida com isso em mente. Eu me lembro de um garoto da pré-escola que tinha alguma dificuldade cognitiva. Ele era lento, vivia com o queixo úmido de saliva, pintava horrivelmente: sem respeitar as cores "certas" nem os limites das gravuras. Meus amigos um dia começaram a zombar do desenho dele, estávamos pintando um pato e ele fez o dele de roxo. Triste com os risos das crianças, ele foi pedir à professora um novo desenho, então comecei a pintar meu pato de azul, que em cima do amarelo ficou verde. Todos nós nos distraímos conversando sobre mistura de cores naquele dia e pararam de zombar do menino. Eu me lembro de ter ficado aliviada por ele não estar mais triste e fiquei satisfeita com a consequência do meu ato.

Essa semana provei uma versão amadurecida dessa história de "consequência dos seus atos".

Tudo começou em 2012, quando fui aprovada em Turismo na UFSCar de Sorocaba e deixei as terras pirajuenses para morar na "metrópole do interior". Cheguei lá perdida, foi minha primeira experiência universitária, e não deixei de participar da semana de integração, em que acontecem os famosos "trotes". Você é calouro, "bixo" ou "bixete" e todos os veteranos estão ansiosos para te conhecer, para pintar sua cara com guache, para ouvir atentamente suas falas à procura de uma gafe que possa gerar um apelido bem constrangedor. É a maior diversão! E eu me diverti pra caramba conhecendo os veteranos e veteranas, conversando com todo mundo e indo a churrascos organizados especialmente para nos recepcionar! Nenhum veterano ou veterana foi abusivo, e quando me vi diante da ordem "Ajoelha, bixete!" não hesitei em negar e não houve conflitos, só uns comentários brincalhões dizendo que era mancada ou que eu era uma bixete abusada.

Um daqueles dias, porém, estava perdida pelo campus e acabei encontrando um pessoal que organizara um trote solidário. Iríamos de carona no carro de uns veteranos até uma ONG de Sorocaba que dá assistência a  pessoas sem-teto. Lá, essas pessoas recebem ajuda para encontrar seus familiares, podem tomar um banho, comer e dormir. Durante o trote, as responsáveis pela ONG nos explicaram que às vezes eles até pagam a passagem para a pessoa re-encontrar a família, conhecemos o lugar e trabalhamos voluntariamente na horta do local. Enquanto trabalhávamos, pudemos conversar uns com os outros, precisamos contar com a ajuda de todos e nos divertimos muito quase caindo de cara no adubo ou tropeçando com o carrinho de mão e fazendo uma bagunça!

Posando zuadas para fotos ruins.. hahaha
A partir daí minha cabeça mudou: por que trotes assim não eram mais comuns? Por que só ouvimos falar de trotes agressivos ou inúteis (como pedir dinheiro no semáforo ou rolar na terra molhada)? Festas arrecadam dinheiro para as entidades universitárias, tudo bem, mas NO CAMPUS por que não criamos mais trotes solidários? E decidi que iria chamar atenção para isso assim que tivesse a chance.

Acabei abandonando o curso de Turismo antes mesmo de completar um semestre, mas jamais perdi contato com os amigos que fiz em Sorocaba. Voltava para visitá-los, conversávamos online e por sms.. E quando decidi que queria cursar Pedagogia, não pensei duas vezes antes de escolher a UFSCar. Veteranos me confirmaram a qualidade do curso, a grade me confirmou que eu ia gostar do curso, prestei o ENEM. Enquanto esperava o resultado, a questão do trote não saía da minha mente: como demonstrar pro Brasil inteiro a revolta que o trote à toa me causa? A revolta que ações opressoras me causam? A revolta que trote racista me causa? A revolta que trote homofóbico me causa? A revolta que trote xenofóbico me causa? Sobretudo: como mostrar que o trote solidário permite a mesma integração, só que causando impacto positivo nos envolvidos e, ainda, na sociedade?

"Vou raspar o cabelo, assim como os meninos... Isso deve chamar a atenção e quando quiserem me ouvir posso falar tudo o que penso sobre o trote!", mas a ideia era muito vaga. "Vou raspar o cabelo para mostrar que o trote não deveria acontecer a esmo, mas pra quê vou ter raspado o cabelo? Vai acabar sendo algo à toa também..." e então me lembrei de um amigo cabeleireiro que sempre dizia pra eu lhe dar o meu cabelo, que ele queria fazer uma peruca. "E se eu doasse meu cabelo para algum paciente de câncer que gostaria muito de ter cabelo, mas não pode?". E era isso mesmo que eu faria!!

O SiSU abriu e fechou inscrições, a primeira chamada veio e com ela trouxe meu nominho.. PASSEI!

Todos meus amigos ficaram felizes por eu estar voltando e logo anunciei: vocês vão raspar meu cabelo, vou doar para o Cabelegria e vamos fazer um vídeo de conscientização sobre o trote solidário! Eles toparam, e a notícia de que uma maluca estava disposta a raspar o cabelo no trote chegou aos ouvidos de uma veterana que estava disposta a promover um evento de doação de cabelo no campus. A veterana era de Pedagogia, e logo decidimos que eu seria o chamarisco para o evento... Meus veteranos se organizaram e arrumaram parceria com cabeleireiros profissionais para fazer o corte em quem decidisse doar. Arrumaram parceria com a empresa que faz o tratamento dos fios e produz o mega hair a ser doado. Arrumaram parceria com o Grupo Andanças, composto de voluntárias que fazem o acompanhamento de mulheres em tratamento do câncer de mama. Todo esse pessoal estaria no campus da UFSCar em Sorocaba no dia 10 de março para uma ação solidária que pretendia integrar calouros e veteranos. Imaginei como seria cada detalhe..!

O que eu não imaginava é que outras 40 voluntárias também estariam lá para doar 10cm da cabeleira.

Nem que outra caloura da minha sala estaria disposta a raspar os cabelos, assim como eu.

Thyfani e eu após o corte
Foi mágico! Foram TANTAS meninas lá para doar cabelo, que não deu tempo de cortar de todas, o salão pegou contato delas para que fossem cortar durante a semana. O jornal Cruzeiro do Sul estava lá cobrindo o evento e fez uma matéria enooorme e perfeita sobre a gente! A Rede Record também marcou presença e caprichou no resultado final. E a TV Tem, ainda, esteve lá nos entrevistando, tirando fotos e sua matéria no G1 já tem 565 comentários.

Nos comentários foi que vivi de novo aquela coisa das consequências de um ato.


Gente que entendeu.
A quem eu agradeço do fundo do coração ♥


Gente que entendeu pela metade. 
"Vaidade" é gastar centenas de reais por mês no salão pra cuidar do cabelo. Divulgar um ato solidário é a tentativa de divulgar a ideia de solidariedade, que não é vaidosa.


Gente que entendeu errado.
Porque, na verdade, doar o cabelo é permitir à mulher em tratamento que ESCOLHA com autonomia aquilo o que quer para o seu corpo, independente do tratamento. Não é uma tentativa de fazê-la mais mulher, é uma tentativa de fazê-la uma mulher mais dona de si e da sua aparência. É não privá-la de uma escolha.


Gente que não entendeu patavinas.
E que deixou refletir em comentário a sua ignorância ao achar que toda mulher que quer aparecer na mídia busca uma abordagem sexual. Que acha que tudo o que uma mulher deseja é ser desejada. Não, Gato, também desejamos mudar o mundo pra melhor.


Gente que nem se esforçou pra entender.
E que mal deve ter lido a reportagem. Que estava mais preocupada em humilhar do que em perceber a mensagem transmitida pelo ato. Gente que deve ter dado trote violento quando estava na faculdade e que só consegue se fazer maior reduzindo os outros.


Gente machista.
Que não tá nem aí pra uma mulher se ela não mostrar a boceta.


Gente que julga.
E nem se esforça pra entender os contra-argumentos. Gente que não entendeu que a divulgação só é importante pela ideia de combate ao trote violento, e não pelo meu rostinho na capa do G1.

Gente essa que forma nossa sociedade. Que nos representa em eleições, que forma a opinião pública, que dita as regras invisíveis do nosso ser e agir, que exerce a coerção. Que educa nossas crianças!

Gente que formou as consequências da minha tentativa de espalhar uma preocupação: o trote violento nas universidades. Que me deu a chance de me explicar melhor respondendo seus comentários, mas que me fez ver a humanidade com um pouquinho menos de brilho. Gente que eu acho que devia ler mais, observar mais o mundo ao redor e perceber quantos dos seus rótulos são falsos.

Desde aquele da mulher carente por atenção masculina, passando pelo da jovem que só quer atenção midiática, até o rótulo da pessoa que sugere uma alteração estética em alguém por futilidade e nada mais.

Ainda bem que nessa empreitada também encontrei gente que entendeu e comemorou comigo!

Laércio, o primeiro veterano de pedago pra quem falei da ideia ♥

Meus amigos desde 2012 ♥ (muitos faltando nessa foto)

Pra finalizar: meu "antes e depois"...
Foto: Jéssica Pimentel/G1

Pra descontrair: gente que trouxe um pouquinho de lucidez com uma pitada ácida peculiar...

E gente que me fez rir largado depois de ler absurdos...


Já aprendi com minha mãe que devo agir com base naquilo em que acredito e é o que eu faço. Critique e opine, mas faça disso uma ação com este mesmo embasamento. Espero que aqueles que concordam com algum dos comentários enganados que retratei possam ler este post e se convencerem daquilo que realmente moveu minha atitude e a de todos e todas envolvidos no nosso trote solidário "Doe suas madeixas". E espero que nossa ação tenha sensibilizado um grande número de pessoas dispostas a mudar a realidade da recepção de bixos e bixetes nas universidades Brasil afora. VAMO QUE VAMO! :D

Ofereço este post à minha veterana e ex-colega de classe, Camila Seixas - uma das minhas pessoas favoritas.

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