- Eu ficaria sem jeito.
- E seu disser "eu te amo!"?
- Não vai ser recíproco.
- Você não gosta de mim?
- Claro que gosto. Pela sua amizade, aprecio sua companhia, admiro seus pensamentos...
- Me falta a beleza, então?
- Jamais! Que corpo lindo você tem. E as linhas do rosto! Maravilhosos.
- Então o quê?
- Não sei. Amor?
- Amizade, apreço, admiração, beleza... Não é isso o amor?
- Também...
- Também o quê?
- Também tem as coisinhas pequenas.
- O que seriam?
- Tudo. Tudo o que é nosso, que nos fez pertencer um ao outro.
- Não entendo...
- Pois assim. Mesmo que me ame, mesmo que eu retribua...
- Então te peço em casamento!
- Sim, e mesmo que eu aceite... Mesmo assim ainda não teremos as coisinhas pequenas.
- Mas podemos construí-las! Adquiri-las! Arranjá-las com o tempo!
- Não, as coisinhas pequenas não se arranjam mais depois do amor, são elas que o fundamentam. Elas que decidem como será o amor que vai surgir.
- E de quais coisinhas destas eu precisava para que pertencêssemos um ao outro?
- Do sentido de primeiro de fevereiro, por exemplo. E do dia primeiro de cada mês. Da felicidade mais confusa, do medo e do pecado de 19 de novembro. Do desdém da folha de salsa plastificada na minha carteira. Do significado de 7+7-1. Todo dia. A partir de hoje. Da esperança em "ad infinitum", da dor em "ad infinitum mais três anos e pouco". Da ira oculta em "whatever". Da tornozeleira arrancada do lado esquerdo. Do anel no dedo. Da pinta que um dia vai sumir. Será? De um "é" bem pronunciado...
- Não entendo... Não entendi nada.
- Claro que não. E se entendesse, estaríamos juntos, felizes. "Óh-nããão". (: [e o sorriso forçado machuca]
- Você enlouqueceu!
- E você ainda não encontrou as coisinhas pequenas.
A quoi ca sert l'amour?
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