sábado, 29 de setembro de 2012

5 dias de luta

Você sabe que o despertador já tocou, mas não sabe há quanto tempo. A sensação predominante é a de "estou atrasada", isso até que você percebe a calcinha molhada do umbigo até o meio das costas. "Droga.". Bom dia, você está menstruada!!

Empurrando as cobertas até metade do tronco, o ar gélido de uma fria manhã chuvosa invade seu corpo quentinho e sonolento através das narinas. As mangas do pijama arregaçadas não protegem os braços: seus pelos se arrepiam de frio. "Brrrr!". Você se senta na cama, sentindo um verdadeiro "Splash" dentro da sua calcinha. Você se vira sentada, pendurando os pés pra fora da cama e a calcinha molhada já não é a pior parte.

É como se um aterrorizante monstro de gelo morasse embaixo da sua cama, soprando maldosamente seus pés com seu hálito frio, deixando sua gargalhada maquiavélica ecoar seus graves bem abaixo do seu umbigo, em contrações que parecem ter mais vida do que você mesma. A essa altura o seu corpo já está todo arrepiado e o perverso monstro gelado já se mudou para dentro da sua barriga, deixando os lábios cuidadosamente pra fora do seu umbigo de forma estratégica para soprar sua pele. Frio. Dor. O monstro é um sapo gelado, gelado e musculoso, ele se instalou dentro do seu corpo mas não deixa de soprá-lo por fora, chamando ainda mais atenção para os pisões que ele dá no seu útero. Ele pisa, amassa, torce tudo dentro de você e você ainda tem que se levantar pra ir trocar aquela maldita calcinha molhada.

O contato dos pés com o chão - independentemente de haver um tapete - é grosseiro. É ríspido. Repentino. "Aih..". É o sentimento que te provocaria se uma estaca fosse enfiada no seu calcanhar, de baixo pra cima, em direção à canela. Você a sente penetrar até os tornozelos, e elas são feitas de chumbo: pesadas. A essa altura, a pele do seu corpo está quente, seus músculos estão tensos e até a cabeça parece começar a reclamar de dor. O calor febril que a dor desperta é realçado pelo sopro fresco da manhã, as estacas são piores que qualquer salto-alto: não são opcionais.

Um passo. "Ai.". Dois. "Ai.". Três. "O banheiro é logo ali." Quatro. As estacas já penetraram até a canela. "Ai.". Cinco. "Que casa enorme.". Seis. "Finalmente!". Mas o banheiro não é a salvação, é apenas um novo estágio! Você abaixa as calças, a cabeça pende para a frente e os olhos quase que saltam pra fora dela, tudo muito dolorosamente. Tudo isso além do monstro sapo que parece ser um incansável dançarino do pior sapateado já conhecido. Era o seu sangue que molhava sua calcinha, é ele que você terá de lavar das suas roupas e do seu lençol, acompanhada da ginástica rítmica do monstro sapo, com seus sopros impiedosos, com seu escárnio nos movimentos. "Este é só o primeiro dia.", ele sopra friamente.

Dentro do box é ainda pior: nua, exposta, como uma ferida em carne aberta, você está ali por si só. Justamente naquele dia o chuveiro resolveu demorar 5 anos para esquentar, e a gota gelada que está ali todo dia hoje trouxe a família toda pra debochar de você. Você lembra que tem que ir trabalhar, lembra que esqueceu de ver que horas são, lembra que acordou depois de um tempo que desligara o despertador. "Devo estar atrasada." e então o chuveiro colabora: esquenta de vez.

AAAAAAAAAAAAAAH! QUE    D E  L Í C I A !

Um abraço quente era tudo o que você precisava! Aquele abraço quente... A água escorre pelo seu corpo, como é mágico o comportamento dos fluidos! As batidinhas da água na nuca revitalizam, a corrida de calor nas suas costas tranquiliza. "Atrasada, eu?". Um passinho para trás e a água escorre também pela frente, lava o monstro sapo da sua barriga "Vade retro!", e as estacas ficaram abandonadas no rasto do seu último passo. A cabeça pende para a frente mas os olhos se comportam, nada mais parece estar prestes a explodir e você contempla os desenhos de sangue na água escorrendo pelas suas pernas. É o pensamento que te traz de volta à realidade "Estou atrasada!".

O chuveiro se fecha e o mostro sapo ressurge do ralo. Já se abrigou novamente a esmagar seu útero. Enrolar-se na tolha é tão difícil como se a toalha pesasse 50 quilos. Os passos até o quarto são guiados pelas estacas que voltaram sem que você percebesse. Rápido! Você só tem mais 20 minutos pra chegar ao trabalho, e ainda faltam 120 horas pra isso tudo acabar. Força, mulher!

*   *   *
"Cinco dias de luta" é originalmente um texto que fiz no primeiro ou no segundo ano do ensino médio, quando um professor de redação explicou que um ensaio é feito com o conhecimento do autor acerca do assunto e que, portanto, um ensaio sobre a menstruação feito por uma mulher envolveria detalhes da experiência acontecendo em si, mas feito por um homem, envolveria apenas vivências com mulheres menstruadas. Gostei da ideia e escrevi o texto mais perfeito de toda minha "carreira", imprimi e o entreguei ao professor. "Professor, eu imprimi com pressa e, quando computador perguntou se eu queria salvar, sem querer apertei que "não", esta é a única cópia. Me empresta depois pra um xerox?". Ele respondeu que sim, claro, mas depois voltou pra elogiar meu texto e disse que o perdeu na mudança de casa. O texto acima não chega nem perto da maravilha no original, mas a ideia é a mesma, uns dois anos mais tarde.
Profê, você perdeu minha obra-prima! Que pouca vergonha!! hahahahahaahahaha ;)

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