sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Quando eu odeio ser canhota

bebês estranhos, mas que te roubam um "oooun"
É desde pequenininha que eu adoro ser diferente. Sempre tive orgulho de escrever com a mão esquerda, afinal, era aquele espanto todo primeiro dia de aula... As tias sempre soltavam um "Oh, filhinha! Você escreve com essa mãozinha?" e me lançavam aquele olhar de quem vê filhotinhos de ornitorrinco...
Desde sempre é com enorme orgulho que uso a mão esquerda para empunhar o lápis e lançar meus rabiscos ao papel. Sempre fui estimulada, e muito, em meus desenhos. Acho que a família inteira se impressionava de ver meu bom desemprenho apesar da "deficiência", convenhamos, "canhotismo" não é normal e ninguém mais na minha família é canhoto antes de mim. Minha irmã mais nova nasceu canhota, mas isso é porque ela gosta de me imitar...
primeira obra prima de uma canhota
Eu me lembro do meu primeiro desenho-obra-de-arte, que mereceu uma moldura. Era um dinossauro! Eu sempre fui apaixonada por dinos... Meu pai foi o que mais maravilhado ficou, inclusive foi ele quem inventou de emoldurar meu singelo desenhozinho. Eu me empenhei muito naquela obra, sério mesmo! Eu observei o meu dinossauro pescoçudo da minha coleção (eu tinha mais de 40 dinos, parte de uma coleção da Salvat que vinha com fascículos explicativos de como era cada espécie, alimentação, habitat...), tentei reproduzir no meu desenho a escala de tons de verde que marcava suas costas, dá pra perceber. Depois, inventei de fazer um sol, mas naquele dia eu estava disposta a fazer um desenho o mais realista possível, então - me lembro disso até hoje! - saí na porta da cozinha da casa da minha vó, era umas dez e pouco da manhã, mirei o Sol e olhei diretamente pra ele. Eu queria saber como ele era MESMO, queria desenhá-lo idêntico à vida real!
"Pára de ser tonta, menina! Quem mandou olhar pro Sol? Vai ficar cega!", foi o que minha vó disse quando entrei em casa toda atordoada, esfregando meus olhinhos desprovidos de camada protetora (também conhecida como pigmento, melanina, olho preto/castanho escuro). "É pra desenhar o Sol, vó...", e minha visão ainda era só um borrão brilhante. "Ah-a! Até parece que você não sabe desenhar um Sol, mesmo! Mas é muito cheia de graça, essa menina... Desenhe sossegada, aí, vai! E não me vá olhar pro Sol de novo!!". Claro que ela nem precisava mandar, quem olha pro Sol uma vez, diretamente e sem óculos escuros, a olho nu... Ah, nunca mais repete a proeza!
Enfim, se você olhar pro Sol assim, vai ver uma mancha azul no meio, vai ver os raios se abrindo. Igual meu desenho. E desse desenho em diante, meu pai me apelidou de "canhotinha mágica", apelido que ele bravejava a cada novo desenho que eu vinha mostrar toda orgulhosa.

Tenho litros, toneladas de orgulho em dizer que sou canhota, só odeio mesmo quando quero usar canetas de gel, ou quando estou tentando desenhar meus quadrinhos em uma versão definitiva... Uso uma caneta de tinta molhada, não esferográfica, e então minha esquerdinha tão amada me trai: passa impiedosa por cima de cada traço e vai transformando-nos em borrões disformes. Ah, eu tenho vontade de morrer!

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