quarta-feira, 14 de setembro de 2011

CaliÔpe! Séntate derecho!

Ano 2007/ Sétima série - atual 8º ano do fundamental
Mestre série gold - ou melhor - ''oro''
Quem? Lucía, a Cubana >> Professora de espanhol



No segundo semestre de 2007 a escola que era a paixão da minha vida afundou. Eu amava a escola porque a gente quase não tinha aula, problemas financeiros levaram a maioria dos professores ao pensamento "que se dane!", a gente passava o tempo todo conversando, jogando na quadra, quebrando lâmpadas com a bola de vôlei... Era demais. Com a falência da escola dos sonhos, minha mãe me matriculou no Positivo da nossa cidade. Lá as pessoas tinham aula de verdade. Lá eu não conhecia ninguém. Lá estudava minha prima na mesma sala que eu. É péssimo você chegar em um lugar e ter uma única referência: prima da fulana, por exemplo --'
Meu mundo desabou. Eu era uma pessoa bem desequilibrada na época, passei a ser uma fracassada. Eu odiava a escola, odiava as pessoas daquela escola - que eu nem conhecia, odiava o prédio daquela escola, odiava tudo e todos. Até ME odiava. Eu era revoltada, xingava, criticava, pisava, não me importava e ainda tinha aquela mania odiável de martirização. O mundo vivia me fodendo e eu era a grande vítima.


Meu primeiro dia de aula lá foi péssimo ao quadrado, vezes log de 2 na base 10, à quinta! Uma professora odiável nos deu a primeira aula, ela tinha uma voz horrível! Nunca odiei tanto uma aula de português como naquele dia. Mas talvez isso fosse parte do meu obscuro eu deprimido falando e ouvindo... era uma terça feira. A minha vida se arrastou sofregamente por aquela semana, cada vez mais eu queria morrer. Ou matar todo mundo daquela escola.


Eis que chega a quinta feira. Eis que repentinamente me aparece sala adentro uma figurinha notável. Uma mulher morena de seus 1.65m aparentando a leveza de uma pena, fragilidade. Seu físico me indicou o perfeito contrário de suas atitudes. Falando forte e animadamente, Lucía chegou deslizando pela classe...
"Daaale! Buenos días, yoloquemapasatantomismohoy [eu não entendia aquela pessoa] Dale! Enton... Que día es hoy? Escriban: [e ela escrevia na lousa] hoy es JU-EVES..."
O choque foi tamanho que eu nem tive a força de perguntar pras meninas quem era aquela professora, nem fazer nenhum comentário, nem nada. Só fiquei assistindo a aula... Meu subconsciente não conseguia processar tanta informação. Como uma pessoinha daquele tamanhozinho (dez centímetros menor que você, isso faz MUITA diferença, acredite) conseguia encher o ambiente com sua presença? Como um corpinho delicado guardava um falar tão imponente? Por que é que a sala respeitava TANTO a professora de espanhol? Ela entrou na sala e o clima mudou completamente, tudo parecia tão sob controle como nunca e... Nem consigo descrever, fiquei maravilhada e descobri que teria ao menos um dia de felicidade garantida: Los Jueves


Com o tempo eu comecei a fazer Wizard de espanhol também. Adivinha que leciona? LUCÍA! E daí eu tive a oportunidade de conhecer melhor a pessoa maravilhosa que me encantou desde a primeira vista. A Lucía é alto astral, ela é desbocada, ela te dá conselhos se julga que você precisa, te dá um abraço se você ta com jeito de carente e me deu muitas palavras de conforto. De um jeito exótico, mas deu. É que ela não faz o tipo que expõe suas ideias em uma frase pronta e bonita, toda trabalhada pela beleza da linguagem, nãããão.. A Lucía tasca a verdade na sua cara, como se fosse um ped'ouvido. As pessoas geralmente se machucam com essa atitude, porque em um momento de fragilidade a gente costuma querer apoio, uma cegueira que te iluda e te faça se sentir mais 'feliz'. Nas vezes em que eu estava triste, em que eu estava pedindo essas mentirinhas a  Lucía chegou com todo seu balacobaco e me esfregou de cara no fato. Ela jogou a culpa da minha tristeza em mim, me mostrou que EU era a única pessoa de me fazer de fato feliz. 
Isso é pro caso de você se esquecer como faz
A Lucía se tornou uma pessoa-referência na minha vida, eu vou digitando as palavras e tenho que intercalar o uso das mãos entre pressionar as teclas e enxugar minhas lágrimas. Um mestre e tanto! Eu tenho tantas histórias de tantos conselhos espontâneos que essa Lucía já me deu que eu escreveria um post de meeetros de extensão. 


É isso aí, a felicidade vem, primeiro, da satisfação de si mesmo. Quando você for capaz de se olhar no espelho - sem maquiagem, de pijama, logo depois de lavar o rosto pela manhã -  e observar suas belezas ao invés dos defeitos, aí você vai saber do que eu estou falando...

"O título é uma fala que partia sempre da Lucía pra mim, eu tenho essa mania de me sentar virada para o lado porque minhas pernas nunca cabem confortavelmente embaixo das carteiras escolares - que são feitas para anões - e acabo sempre conversando. Na aula dela, o que eu mais ouvia era um portunhol imperativo de quem nunca conseguiu reproduzir o som de 'IL' do meu "IO". Na aula de espanhol, eu sou CaliÔpe"

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