sábado, 13 de agosto de 2011

Nome de grego

Toca o telefone [triiiiiiiiim] e eu atendo:
- Alô?
- [uma voz anasalada, de mulher] Boa tarde, aquiéaMichellerepresentantedevendasdatelefônica, com quem eu falo, por favor? [aquilo que eles não querem que interpretemos eles sempre falam muito rápido, quase impossível entender]
- Ahnn... Calíope...
- Por favor, Sr. Caliu, o senhor poderia me informar quem é o representante da linha?
- "Caliu" não... Calíope, sou filhA da representante, mas minha mãe saiu [saiu nada...]
- Ah, sim, senhorita Caliu, e você é maior de idade?
- É Ca-lí-o-pe. Calíope. Não, não sou maior de idade...
-Ah, sim. E será que não se encontra nenhum maior de idade ou responsável no momento, senhorita Calíope? [...]

Eu amo o meu nome. Adoro porque tem sete letras, e sete é um número bonito ( 7 ) ^^. Gosto porque fica bonito escrito em qualquer fonte/caligrafia e porque nenhuma das letras se repete. Essa parte da repetição me foi muito útil na época que se comprava adesivos de alfabeto: eu sempre podia escrever meu nome muitas e muitas vezes com uma só cartela, lucro na certa!


Jogue "Calíope" no Google. Você vai descobrir que é um nome grego, nome de uma das nove musas, que sua função é inspirar a criatividade nos seres humanos para a arte e as ciências, blábláblá...
"De porte majestoso, [Calíope] aparenta ser uma jovem mulher, coroada de ouro, com supremacia entre as musas suas irmãs. Camões, no início do Canto III de Os Lusíadas, pede a Calíope que o inspire para melhor contar a história de Portugal [...]". Isso tá na Infopédia.


Amo meu nome, enfim: por motivos fúteis e por motivos culturais. Acho legal ter o nome de uma musa grega, apesar de ser um pouco de responsa... Mas eu gosto. Só não gosto de ter que me apresentar, porque sempre acham que eu sou o Caliu, por telefone; ou Talita, Paliupe e outras pérolas-mil... No primeiro dia de aula, sempre foi aquela merda: professores novos querendo entrosar os alunos, como se a gente já não se conhecesse, e tentando aprender nossos nomes. 
- "Calíope."
- [cara de quem ouviu o enigma da esfinge] Oi? Desculpa...?
- "Ca-líope."
- Não entendi... Calíope?
- Aham, Calíope.
- [riso desconcertado seguido de cara de animação] Olha só, bem diferente, né?
- [cara de simpatia] 'Poizé...[riso de compaixão] 
- [admirado, reflexivo] "Calíope"... Quem escolheu?
- Ah, meus pais escolheram juntos, eu acho.. Nunca perguntei [já falei isso umas 2.078 vezes na vida, menti todas elas]
- Hmmm.. Legal... [aquela cara de quem puxa o lábio inferior pra cima, levanta as sobrancelhas e agita a cabeça positivamente, igual quando você pensa "óóóó.. num sabia...!"]
[...]


Lembro de um primeiro dia de aula, na quinta série. A professora de arte juntou um monte de salas e fez uma roda no pátio. Todos nós sentados e ela com um violão. Ela ia perguntando os nomes, daí ela começava uma batida no violão e cantava um versinho. Não me esqueço do versinho da Gabriela:
Gabi, Gabrieeela...
Ela só come comida na paneeela...
E todos ganharam uma rima pro seu nomezinho comum. E eu mais animada a cada rima, eu não tinha me tocado que meu nome é esdrúxulo! "Calíope!!!" respondi empolgadamente na minha vez.
Só o violão ecoava. Duas vezes a batida escolhida. E ela mudou de batida. Mais duas vezes a nova batida se repetia. Mais tempo do que o normal. Minha excitação ainda não tinha morrido. E a professora simplesmente passou pro próximo. "No final eu volto em você, tá bom?".
Não voltou. :'(
E eu passei as outras aulas todas sem ter comentários a fazer sobre a divertidíssima aula de arte.
Eu era a única pessoa da ESCOLA que não tinha uma rima. mimimi
Na semana seguinte, a professora me procurou no recreio, animada. "Olha, Calíope, a melhor rima que eu achei para o seu nome" tirou um pigarro da garganta, marcou o tempo com uns tapinhas leves na coxa
Calíope, Calíííope [e eu já tava animada de novo]
[esperanças infantis] Para os seus pássaros, ela dá alpiiiiste
Minha cara foi exatamente [...], ou seja, vazio, desapontamento, broxada total. Daí pra frente, minha memória apagou seus registros, não me lembro como me despedi da professora, só sei que não gostei de nenhuma aula dela a partir daquele dia.
*   *   *
E pedir comida? Aaaaaah, Jeová! Eu tenho vontade de morrer, ou de dizer que eu sou Letícia. Pra variar, em casa todo mundo odeia a tarefa de ligar e pedir comida, você sabe, aquele processo todo de ouvir a atendente super feliz, doida pra anotar seu pedido, nome, endereço, te passar o valor, perguntar seu troco e dar a má notícia de que vai levar de 40-50 minutos pra sua pizza te encontrar... Então sobra pra Cali aqui, né? Tem uma pizzaria aqui que a mulher já sabe até meu endereço quando falo meu nome.. Se quando ela atender eu disser "Calíope", na hora ela fala "Uma 'Calabresa 2' sem cebola e um Antarctica 2L??", ah, eu aposto que fala...
Mas entender, assim de ouvido, é o menor desafio... O punk da história tá na escrita........
Imaginem, um país onde muita gente não sabe nem escrever  básico, [leia o comentário do Jackson Melo, escrito em 01.06.2011] imagina como já vi meu nome sendo ortograficamente assassinado.... 
Nas pizzas, sempre vem "Calilpe"; quando eu comprava em outro lugar, vinha "Caliup"; no lanche de hoje veio "Calilp"; mas já li muitos Kaliupe, Kaliu, Calil, Calop [acho que o povo se confunde tanto tentando decifrar as escritas dos fonemas que acabam comendo o 'i'], Calipe, Kalip.... Minha irmã se diverte, claro! Tem dias que ela passa o resto da noite pronunciando meu nome como lhe indica o rabisco na tampa da pizza "CáliLLp - ela grita o 'Cá' pra ilustrar o K e força bem o 'iLL' pra ilustrar o L - tira os pratos daqui pra eu ir lavando? - e se acaba de rir" ¬¬'


Se tem alguém que entende bem a famosa expressão "Estar falando grego", esse alguém sou eu. Ainda não achei nenhuma Calíope na minha vida, e a única que me achou não foi uma experiência muito boa...
Eu ainda tinha Orkut na época, eis que me chega um scrap:
OiiiiiiiiiiiiiÊ migaa!! [eu nunca tinha visto a mina na vida] Ki legau axa uma xara akiiiii *_____________*
Me add ki a gnt podiii se amigaaaaaxxx!!!!!!!!
bjussssssss ;D 
Em dois clicks eu me livrei dela e de mais todos os outros inconvenientes da rede social. Orkuticído.

Mas mesmo com tudo isso, eu acho que no fim tudo são histórias pra se contar. E mesmo que tenha sido um nome de grego que os meus pais me deram, não foi um presente de grego, não. Além do mais, não é só quando eu falo meu nome que eu me sinto falando grego, nem sou só eu que me sinto assim.

Um comentário:

Tá pensando no que eu tô pensando? Me diz aí!! (: