"Para que existam os broxas é preciso que hajam as boxadas. E para que hajam broxadas, é preciso que alguém se anime antes de perder o embalo.
É das grandes perdas de embalo, frutos de enormes animações, que temos as broxadas mais sensacionais de se contar; também as mais tristes de se viver.
E para quem acha que mulher não broxa, eu digo que é porque nunca me viram quando ouço chamar o meu nome no meio de um filme. Tá bom, as broxadas femininas podem nem estar ligadas a potência sexual, e não temos que lidar com essa babaquice de virilidade... Mas isso tudo não tira o drama de uma broxada bem ocorrida."
O texto em itálico é a introdução de um livro que eu comecei a escrever, originalmente intitulada [a introdução] de "Introduzindo... (sem trocadilhos)". Chamei o livro de "Minhas broxadas" e já tinha até trabalhado no design de capa dele. Mas tenho essa coisa de tarefas incompletas e acabo deixando tudo sempre pela metade. Escrevi um texto pro pobrezinho, relendo-o outro dia achei que ficou bonitinho, me orgulhei dele, resolvi postar aqui pra vocês. Um relato de uma vez que broxei, espero que gostem.
O Merthiolate de 2011
Minha mais recente broxada foi uma daquelas que se obtém pela quebra de um pequeno entusiasmo que vem se desenvolvendo há muito tempo. Não é uma broxada mega-dramática, mas é daquelas que deixa um pequeno desapontamento em você pelo resto da sua existência.
* * *
Eu vi outro dia na casa da minha vó, um simpático vidrinho de Merthiolate, aquele remedinho vilão pra machucados, que arrancou mais lágrimas da criançada do que a pereba propriamente dita. Confesso, fiquei emocionada. Eu já tinha visto na Tv que "Merthiolate não arde mais!" e tal, mas minha fase de joelho ralado e cotovelo esfolado já tinha passado...
Olhei firme pro vidrinho e pensei em todas as vezes que um tropeção idiota me deixou sem a tampa do dedão, nas diversas vezes que - sem uma lasca da canela - chorei sentindo o Merthiolate queimar a ferida; pensei nos raspões, arranhões, ralados e machucados de toda espécie e níveis de sangramento que estimularam pai, mãe, vô e vó numa mobilização em prol do Merthiolate, aquele sacana! Pensar em tudo isso me animou. De imediato, comecei a procurar por um machucado no meu corpo, daqueles bem fundos e impiedosos, só pra poder provar a nova fórmula do antisséptico.
Tendo eu 17 anos, não é surpresa que não tenha encontrado nenhuma feridinha, afinal, já não brinco mais de pega-pega e ainda não comecei a cair de bêbada... E apesar da decepção, não foi essa a minha broxada.
* * *
Passei uns dias timidamente animada pensando no Merthiolate que não arde, até que fui com os meus pais ao açougue. Geralmente, ando de carro OU com minha mãe, OU com o meu pai - nunca com ambos - logo, vou sempre no banco da frente. Com os dois no carro, tive que ir pro banco das crianças.
No açougue, desci do carro com o meu pai, mas como o cheiro do estabelecimento me é agradabilíssimo, voltei antes dele. Fazendo esforço enorme, ocupando minha cabeça com cálculos do meu tamanho em relação ao carro e em uma ginástica a que não estou acostumada, dobrei o banco da frente e fui me enfiar no banco de trás. PAFT! Meu joelho esquerdo teve um impactante encontro com aquele mecanismo que a gente puxa pra dobrar o banco da frente. Meus cálculos errôneos resultaram em uma meia-lua aberta no meu joelho. Um cortezinho simpático que sorria pra mim com seus lábios de carne minha e me mostrava seus dentes de sangue meu.
Merthiolate!! Eu ia usar Merthiolate que não arde! [feliz feliz feliz]
E a volta para a casa foi repleta de ânsia, eu estava animadíssima pra usar o antisséptico. Chegamos. Desci do carro e fui direto pra casa da minha vó, entrei correndo e empunhei o vidrinho azul. Afrouxando a tampa, soltei um risinho nervoso, alegre, vi a pequena espátula plástica embebida em Merthiolate, dobrei a perna esquerda, senti repuxar o joelho enquanto aproximava a espátula da ferida. Alegria, alegria, alegria! Toquei o machucado com a espatulazinha, lavei com Merthiolate aquela boquinha sorridente e... N A D A. Não houve sensações.
Broxei.
Como assim?! Então a criançada que se machuca sente isso ao curar o machucado: N A D A? Cadê a graça dessa geração? Pra sentir N A D A eu taco uma gotinha d'água na pereba, pô! O Merthiolate agora não dá nem uma refrescadinha, N A D A.
* * *
Pode até ser que seja bom pra criançada que nasceu agora, esse papo de Merthiolate que não arde; mas pra nós, a geração guerreira que provou o fogo do malvado antagonista, essa pompa de amiguinho simplesmente não cola. Em um mundo sem espaço para um Merthiolate que saiba arder, seremos adeptos da gotinha de limão!
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