Ninguém tem nada contra as comissárias, é uma profissão que tem seu status, as pessoas acham bonito (bonitas, melhor dizendo). Meus pais, por exemplo, super apoiam que eu seja comissária se assim decidir. E só quando fui mandada ser pilota, ao invés, é que eu percebi...
As pessoas que me conhecem a vida toda estavam me aconselhando através de uma visão exterior de mim "Oh, se ela se arrumasse e se maquiasse... Que linda ficaria de comissária de bordo!"; estas são as mesmas pessoas que queriam me ver na passarela há alguns anos. Essa gente tem ignorado - por toda a minha existência - a presença de qualquer dote intelectual que pudesse vir a se manifestar na minha pessoa. Por quê??
PORQUE TUDO O QUE SE ESPERA DE UMA MENINA É QUE ELA CRESÇA E SE TORNE APENAS UMA LINDA MULHER!
Desde que a menina no futuro seja o mulherão de salto alto que esbanja sensualidade (sem ser vulgar, claro, para que não convide os homens a estuprá-las) a menina em questão não precisa ser inteligente. Eu fui tratada assim a minha vida inteira! Sem que percebessem, todos ao meu redor vem me estimulando a ser "menos" e a ganhar apenas um status decente feminino.
Eis que surge uma feminista, que só me conhece de alguns e-mails amalucados que escrevi pra ela, e manda "Seja pilota de avião!" [a exclamação é minha, acho mais dramático pro contexto hehehe] E por que ela o disse??
PORQUE O QUE UMA FEMINISTA ESPERA DE UMA MENINA É QUE ELA SE TORNE A MULHER FORTE, CAPAZ DE ALCANÇAR O QUE QUISER.
Em suma, minha conselheira feminista soube perceber que eu não sou apenas um protótipo humanoide que, arrumado assim, vestido assado, daria uma perfeita modelo/comissária de bordo. Eu acho que ISSO É SER FEMINISTA!
Um olhar feminista vê também a menina com o mesmo olhar que a sociedade vê apenas o menino. Uma pessoa feminista vê qualquer outra pessoa como um ser humano dotado de cérebro, habilidades, raciocínio, p o t e n c i a l.
* * *
HAHAHAHA! Eu acabei de descobrir o que sempre me irritou subliminarmente cada vez que me diziam pra ser modelo... Eu sou feminista desde pequena!
Então chega de objetificar as meninas. Vamos conservar os miolos com que nascem nossas garotinhas, não vamos subjugar e alienar nossas jovens. A gente tem que se treinar a parar de esperar menos só porque são meninas; a gente faz sem perceber, mas é preciso parar. Nós temos essa tendência de fazer mulheres dependentes desde sempre, é a forma que a sociedade nos moldou (ou que a moldamos?). Agimos sempre assim, observe:
* 5 anos de idade: os meninos ganham caminhões de bombeiro, aviões, carros de polícia; são estimulados a se imaginar policiais, pilotos, astronautas - ou seja - os Heróis da Humanidade.
As meninas....... elas ganham sua primeira cozinha, um jogo de panelinhas, uma boneca; estamos chamando as pequeninas de "futuras mães" ( ! )
* 8 anos: os meninos ganham armas de brinquedo, carrinhos de controle remoto, uma bicicleta; estamos lhes dizendo pra se lançarem em aventuras, dizemos que eles é que devem tomar iniciativa, ter atitude - isto é - estamos treinando as autoridades do futuro.
As meninas....... ah! Elas ganham uma Barbie, umas pelúcias e um estojo de maquiagem; é nossa voz dizendo pra que vivam em seu mundinho cor de rosa às custas do maridão, que saibam amar, sejam delicadas e meigas e que mantenham-se lindas - isso é enfiar na cabeça delas o desejo de ser princesa, de ser passiva ( ! )
E enquanto na puberdade os meninos devem se tornar homens e exibir virilidade através de conquistas (o pegador = o todo poderoso), nós somos as donzelas, as jovens mulheres que devem admirar os pequenos homenzinhos, achá-los lindos e ficar suspirando por eles!
Ser feminista, no final das contas, não é odiar os homens. Nós, feministas só estamos cansadas de ver gente capaz perdendo seu valor em função do gênero. Ser feminista é querer que todos sejamos tratados como humanos, não como homens. [Entenda a diferença]
E quer saber? ...Não gosto mais de ser comissária! Hump!

Cara Cali, já li seu post sobre "A primeira vez". E na minha primeira vez aqui no seu blog devo discordar de você em alguns pontos, (já comecei com dissenso... ótimo)creio ser dotado daquela famosa sorte de principiante e minhas primeiras vezes, ou mesmo as primeiras vezes comigo tendem a ser ótimas... rsrsrsrrs... Brincadeiras à parte, comentemos teu: "...Pô! Seja pilota de avião".
ResponderExcluirAcho fantástica sua posição "feminista esclarecida" (não extrema), posso abertamente confessar aqui que partilho da mesma visão em relação à mulher. Vou te citar alguns pontos nos quais posso me apoiar filosoficamente e historicamente:
1) Platão considerava a mulher tão racional quanto o homem (absurdamente moderno esse Platão heim!). Inclusive em: "O Banquete", Sócrates tece longo elogio à Diotina uma filósofa e sacerdotisa antiga que lhe dá lições sobre o amor.
LINK: http://pt.wikipedia.org/wiki/Diotima_de_Mantinea
2) O apontamento de Bertrand Russell sobre o modo de participação da mulher na sociedade espartana. Esse é ótimo, tão bom que vou deixar um trecho aqui. Está em inglês por que foi retirado dum ebook que por sinal inexiste em português. Mas isso não é problema para você.:
"The position of women in Sparta was peculiar. They were not secluded, like respectable women
elsewhere in Greece. Girls went through the same physical training as was given to boys; what is
more remarkable, boys and girls did their gymnastics together, all being naked. It was desired (I quote Plutarch Lycurgus in North's translation):
that the maidens should harden their bodies with exercise of running, wrestling, throw the bar, and casting the dart, to the end that the fruit wherewith they might be afterwards conceived, taking nourishment of a strong and lusty body, should shoot out and spread the better: and that they by gathering strength thus by exercises, should more easily away with the pains of child bearing. . . .
And though the maidens did show themselves thus naked openly, yet was there no dishonesty seen
nor offered, but all this sport was full of play and toys, without any youthful part or wantonness."
Que sociedade maravilhosa, homens e mulheres louvando diariamente e beleza humana sem pudor cristão... Ahhh... eu realmente sofro de grave anacronismo existencial.
"A posição das mulheres em Esparta era peculiar. Elas não eram seccionadas, como respeitáveis mulheres na Grécia. As meninas recebiam o mesmo treinamento físico que os meninos; e o que mais chama atenção é que meninos e meninas exercitavam-se juntos, mesmo estando todos nus.
ResponderExcluirDesejava-se que as moças melhorassem seus corpos com exercícios de corrida, luta, lançamento de barra e de dardosa fim de que os frutos que elas viessem a conceber no futuro, por serem alimentados por um corpo forte, pudessem aflorar e espalhar o melhor: e também que através do ganho de força por exercícios, elas sofressem menos com as dores do parto...
E embora as moças se exibissem nuas abertamente, mesmo assim não havia desonestidade percebida, tampouco exercida; e todo esse esporte era repleto de jogos e brinquedos, sem nenhuma infantilidade ou libertinagem."
Na minha interpretação, as mulheres eram limitadamente igualadas. Embora houvesse o treinamento e o respeito pela mulher, tudo isso girava em torno da sua atribuição da função de fêmea, de procriadora. Não soa muito bom aos meus ouvidos, mas acredito que a modernização desse pensamento abstrairia essa parte, permitindo à mulher que "fosse também à guerra", trabalhando fora, sustentando o lar, até.
Tanto Atenas quanto Esparta desconsideravam as questões femininas, fato que ilustra bem isso é que há pouquíssimo registro sobre a vida das mulheres ou suas opiniões. Para eles, igualdade era extender ALGUNS privilégios dos homens às mulheres. As espartanas usufruiam de mais direitos contudo isso não muda o fato de que aquele era um mundo masculino, o máximo que elas podiam fazer era se adaptarem a ele.
ResponderExcluirCalíope, muito legal seu espaço. Para algumas mulheres o Feminismo é um aprendizado, já para outras é uma descoberta, é reconhecer o que estava apenas oculto dentro de nós. E que que foi isso, o sujeito contando vantagens sexuais aí em cima.. dispensável é o mínimo a se dizer.
Educar meninas para serem auto confiantes e donas do próprio nariz, nesse mundo machista, é um desafio constante mas vale à pena. Minha filha de 10 anos muda mensalmente aquilo que ela vai ser no futuro :) Quando ela soube que a Dilma venceu as eleições, no início ela estranhou mas depois os olhos dela brilharam. Ficou toda empolgada porque aquilo ali era a confirmação de que ela pode ser qualquer coisa que quiser. Não basta falarmos dentro de casa, precisamos urgentemente de exemplos concretos ao nosso redor. Vejo algumas pessoas dizendo que aquela fase pioneira do Feminismo já passou, que agora só precisamos sedimentar as conquistas.. isso não é de todo verdade verdade. Somos uma geração que continua abrindo portas, conquistando espaços, servindo de exemplo para encorajar outras. Vejo isso nos olhos da minha filha que ainda se surpreende vendo mulheres em posições de destaque. Que venham as pilotas e as presidentas.
Liana,
ResponderExcluirEntendi o seu ponto de vista com relação ao cometário do André; só acho que talvez um mal entendido esteja para acontecer. Creio que os argumentos que ele utilizou, mesmo apesar do mundo masculino que retratou, creio que sua ieia fora enfatizar a questão do corpo. Você é leitora da Lola e deve estar por dentro da questão das mulheres que "pedem para serem estupradas" através de suas roupas "vulgares". Espero que tenha sido com isso em mente que o "sujeito", como você mesma disse, tenha publicado seu comentário.
O feminismo é um movimento e tanto, essencial para nossa conquista de poder apesar da vagina (também conhecida como ausência de pênis) que traz um pensamento de menos poder. MAS precisamos ser cautelosas, extremismos fazem-nos pegar argumentos dos outros e interpretá-los erroneamente. Defeno o posicionamento do André no sentio do CORPO, e como as mulheres não eram assediadas apesar de seus esculpidos corpos nus se misturarem ao ar livre com os corpos nus masculinos (se é que isso de fato ocorreu assim). E te apoio também na ideia do mundo masculino que essa sociedade representava (Esparta), tanto que levantei em meu comentário a questão do interesse: o corpo da mulher só era respeitado porque era dele que viriam os novos pequenos guerreiros de Esparta
Claro, Calíope. Eu também entendi e concordo com a questão do corpo. É como comparar com índios, as mulheres e os homens andam nus e ninguém liga pois eles não sexualizam o corpo. E isso é ótimo mas ainda é uma sociedade machista. Só pontuei o fato de que o machismo independe de conseguir olhar mulher nua e não estuprá-la ou mesmo no culto ao corpo no contexto de uma sociedade bélica e machista. Mas de fato, estar num ambiente em que há uma visão mais tranquila do físico é uma vantagem e tanto.
ResponderExcluirAh, sim... Muito bem colocado, por sinal.
ResponderExcluirÉ ótimo e animador ver uma discussão (ainda que pequena) acontecendo aqui. Acho saudável e sinto que meu post tá cumprindo com sua função: despertar as cabeças pensantes e o questionamento dentro de nós.
Obrigada pelos comentários, Liana!
Obrigada também, André!
Continuem lendo E comentando
=D