segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A vida online

É tão fácil criar uma conta de e-mail, não? Qualquer não-tão-analfabeto que saiba como funciona um computador em suas funções mais básicas é capaz de ter seu próprio endereço de correspondência virtual. E é só o primeiro passo, um e-mail é a chave de acesso a perfis em redes sociais, comentários em sites, fóruns e blogs. Pra muita gente isso é maravilhoso (pra mim, inclusive!), mas a gente já se deu conta de quanto se criou em torno dessa "segunda sociedade" em que vivemos, a Internet?

Não tenho fundamentos "oficiais" para argumentar, mas algumas aulas de sociologia e um semestre de antropologia na faculdade já me abriram os olhos pra entender que somos organizados em sociedade. Dentro de nossa organização há uma série de regras e leis - escritas ou não! - que fazem parte da nossa cultura.

Por exemplo, na vida real, uma mulher de roupas curtas exibindo seu corpo é menos respeitada.  É vulgar. Não merece respeito porque não SE dá o respeito. Da mesma forma, uma mulher com foto de perfil no Facebook que é 80% ocupada pelo seu decote ofensivo e provocativo (os outro 20% da foto são ocupados pelos lábios cheios de batom vermelho retorcidos em um bico de pato) é menos respeitada. É vulgar. Não merece respeito porque não SE dá o respeito.

E falo isso indo muito além, vamos simplificar. Como se fossem Maiúsculas Alegorizantes, nossas atitudes online carregam um moonte de simbolismos (ou melhor, Simbolismos!) dos quais a gente nem sempre se dá conta.

Eu sou mulher, minha foto do perfil não é como a que eu retratei acima (ainda não comprei um par de peitos, e batom vermelho não combina com meu tom de pele..), e obviamente não é uma das minhas piores fotos! Na Internet, sou uma mulher bonita. Só. Um nome ilegível, talvez.. Mas em alguns cliques, o stalker mais amador consegue descobrir que escrevo o Rascunho, pode ver meus posts anti-machismo, anti-homofobia, revolts, pseudo-revolts e ter uma noção muito boa de como eu sou.

Arriscado, não?

Para muitos, eu sou louca: "Fica expondo sua vida na Internet!! Pra TODO MUNDO ver..!". Minha mãe já me falou algumas vezes que eu fico postando conversas nossas no Facebook e as pessoas vêm comentar com ela depois. Mas e daí? Não é como se eu estivesse contando detalhes sórdidos da nossa existência, eu não escrevo nada DELA, escrevo sobre mim, o que às vezes inclui ela.

Já escrevi aqui no Outros tempos que eu disfarço partes das histórias. Claro! São outras pessoas, que se quisessem ter suas vidas e pensamentos expostos, escreveriam o próprio blog. Isso tem um Simbolismo enorme! Alguém que escreve um blog pode ser interpretado como uma pessoa carente que precisa de atenção, como alguém com ideias e vontade de expressá-las, como um escritor frustrado sem dinheiro nem concentração para escrever e publicar o próprio livro... Como uma mistura de tudo isso..! Muitas interpretações, que dependem unicamente da pessoa que está interpretando.

Quando um desconhecido te adiciona no Facebook, o quê você pensa? Sou mulher e fui educada para desconfiar do pior: homens desconhecidos que me adicionam estão necessariamente dando em cima de mim e só de aceitar o pedido já é permitir que ele chegue chegando na próxima balada. Mulher é menos mal.. A não ser que ela seja assumidamente homossexual no perfil, se for, está dando em cima também. É uma forma extrema de ver as coisas, eu sei, mas é melhor ver extremamente o pior e prevenir-se do que correr o risco de passar por uma situação desagradável: não dá pra adivinhar como cada um percebe um "add". (Leia: Me add?)

Calíope cutucou você. Cutucar de volta?
Sou defensora do "Não tenho bola de cristal" e só aceito desconhecidos que mandem inbox. Tem uma galera na pendura, lá.. Alguns eu sei que me conhecem da rádio, como locutora, mas sem inbox não aceito. E até as pessoas com quem nunca conversei ou interagi no meu Facebook são conhecidos. Ex colegas de classe ou de escola, ex professores, umas amigas da minha mãe que gostam de ler minhas histórias postadas.. Enfim! Pessoas "inofensivas" para o conteúdo que eu posto.

Escrevo um blog, sim. Posto parte da minha vida, sim. Mostro a cara, posto foto, meesmo! Mas isso tudo é só a Calíope online. Na vida real temos várias partes impublicáveis... Tipo o número 2 que to indo ali fazer agora. Ops! Não precisava ter falado, né..? Ou você quer uma foto?

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