sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Ensaio para a morte

Na verdade o intuito deste texto é ser um ensaio "sobre" a morte, mas pelas características de um ensaio, ainda não me julgo capaz de fazer um ensaio sobre esse assunto. E tudo bem que "ensaio para a morte" soe bem suicida, porque foi ele mesmo que me trouxe aqui: o suicídio.
Conheci um menino da minha idade, 19 anos, e era um menino muito bonito. Poucas foram as oportunidades que tivemos de conversar, mas já dava pra ver que ele era bem encantador. Começou a namorar uma amiga minha, estavam muito bem juntos, mas no último domingo, ele se matou.
O motivo não vem ao caso, até porque só ele poderia justificar um caso assim. E como não deixou nenhuma carta, não ouso repetir os boatos.

É engraçado como a morte mexe com a gente. Ela revira de dentro pra fora, ela mata um pedacinho seu daquele pedaço que conhecia a pessoa que levou. A morte leva sem avisar, e se mantém puxando os cabelos de quem não conseguiu arrastar. Dói.
Entrar no velório hoje, ver todos aqueles rostos torcidos de lágrimas, testemunhar abraços de solidariedade, ouvir os murmúrios de uma voz embargada no ouvido de um parente aos prantos.. Isso tudo me atingiu como uma cabeçada na boca do estômago, dessas que todo mundo já tomou alguma vez na infância jogando futebol, só que invisível. Não cheguei perto do caixão, a visão de um amigo - mesmo que não tão próximo - naquela forma me arrancaria as lágrimas à força, por mais que eu tentasse me conter. Vi o irmão dele, um bom leitor aqui do Rascunho, um bom amigo: "Caaali.." ele disse. E eu nunca vou me esquecer da sensibilidade, da surpresa e do carinho que aquele tom me transmitiu. Naquele momento, sim, as lágrimas foram mais fortes do que eu.
Seja forte, viu? Conte com aqueles que te querem bem, tá todo mundo contigo nessa.. - me aproveitei do movimento que fiz acariciando seus cabelos pra enxugar com a manga do moletom a meia dúzia de lágrimas que deixei cair - Eu estou aqui, viu? - eram meus murmúrios numa voz embargada - Conta comigo, Tom. Se cuida, mantém a cabeça no lugar e dei um beijo em seu rosto, tentando dizer que mesmo sem saber o que fazer, faria o que pudesse pra confortá-lo. O olhei nos olhos de choro - Força, Tom. Tem muita gente do seu lado, viu? - e com o braço em volta do seu pescoço, dei mais um beijo que comprovava minha presença. Seu "Obrigado, Cali.." foi bem abafado por um arfar de choro, mas seus olhos preencheram o silêncio e completaram as reticências. Pude sentir que ele via minhas intenções no abraço, nos beijos e nas palavras desajeitadas.

Descanse em paz
Depois disso, fiquei ainda um tempo por ali, fazendo hora. Olhava em volta sem acreditar, tentava ver alguma coisa ali que desmentisse os fatos, mas meus olhos só viam evidências da morte. Calei minhas ideias pra me impedir de chorar, acompanhei o enterro junto de outros amigos em comum com aquele que se fora.

E não é verdade que há sempre um fúnebre pedacinho de nós que se imagina sendo velado e enterrado? E se fosse eu? Assim, enterro a enterro, vamos nós ensaiando para a morte. E, de um jeito ou de outro, vivendo-a, e um dia seremos capazes de fazer mesmo um ensaio "sobre" a morte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Tá pensando no que eu tô pensando? Me diz aí!! (: