quarta-feira, 22 de maio de 2013

Outros tempos

Quando minha irmã de 10 anos quis ter uma conta no Facebook e eu fui contra, oque eu ouvi foi "São outros tempos, Calíope". Da mesma forma que ouvi quando fui contra ela ter um celular. "Os tempos são outros, deixa de ser ciumenta!". Minha resposta foi "Tudo bem, no próximo caso de gravidez na adolescência que tiver chocando vocês, direi que 'São outros tempos'. Só espero que não seja na nossa família.". Só assim calei e causei reflexão nos meus velhos mal-informados..
Mas a maior besteira que ouvi sobre estarmos vivendo "em outros tempos" foi hoje no almoço, quando meu tio disse que...
...hoje em dia ninguém mais se preocupa com isso [homossexualidade], ninguém tá nem aí com a vida do cara, entendeu? Falar que não é aceito.. Isso é bobagem, são outros tempos!!
Claro que discordei fervorosamente. A sociedade não exerce nenhuma pressão? O mundo todo não prega que a homossexualidade é errada? Um casal gay que se beija, se abraça ou simplesmente anda de mãos dadas em público NÃO sofre nenhum tipo de censura nem causa olhares de reprovação e sentimento de repulsa?
-HA-HA-HA-HA!! Que mundo é esse em que você vive? Tudo bem, pode até ser que você não se importe, tio, mas A SOCIEDADE, se importa! A maioria das pessoas e a educação delas defende que um casal só é aceitável se composto por um cônjuge de cada sexo. "Só não pode dançar homem com homem / Nem mulher com mulher", pois é, tio, Tim Maia hoje em dia andaria com cara azeda pelos cantos,a resmungando blasfêmias contra casais apaixonados do mesmo sexo.
-Nãoo.. - ele insisitu - Mas falar que a família não aceita, que tem vergonha, isso aí não tem mais!

HAHAHAHAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Claro. Ok, vi que não tinha jeito, apelei para a hipótese: digamos que a família aceite, beleza? Legal, todos felizes e compreendendo que a pessoa ama e sente-se sexualmente atraída por alguém do mesmo sexo que ela. Como essa família é vista pelos olhos das outras pessoas? O mundo inteiro não vai ter nada de mal ou ofensivo para falar dessa família? Eles serão vistos com os mesmos olhos que membros de famílias só com membros héteros nas missas de domingo? Não, infelizmente, não. 

No calor da discussão, minha vó admitiu sentir-se envergonhada de ter que reconhecer a homossexualidade de um membro da sua família. É um caso distante, quase sem parentesco comigo e meus pais, mas minha vó considera família e disse:
-Eu morro de vergonha de ter que falar que a menina da Silvana tem namorada... Deus que me perdoe de falar, mas eu tenho, minha Nossa Senhora de Aparecida...
E é claro que tem. Ela frequenta um ritual cristão que defende que o amor só existe entre pessoas do sexo oposto (o amor conjugal). Ela é de "outros tempos", ela rotula as coisas como "de menina" e "de menino", ela me diz que nem pareço uma menina usando meus tênis encardidos... Que a bagunça no meu quarto não é coisa que uma menina deveria ter... 

Ainda ontem eu defendia, no mesmo cenário do almoço, que só o que importa no sexo é que seja consensual: se um homem e uma mulher querem e concordam, faça-se o sexo! Se dois homens querem e concordam, amém! Se duas mulheres querem e concordam, que assim seja! Ménage à trois? Chicotinho? Suruba? Um por dia? Todos juntos? Só o que importa é que todos os envolvidos estejam de acordo, para que não seja estupro. Se a mulher quer transar com um cara por dia e cada dia tem um cara que quer transar com ela, o que tem de errado? É consensual! E hoje, lá estava eu chocando mais uma vez, esfregando na cara deles como o preconceito contra homossexuais existe, SIM.

-Ah, mas pouca vergonha é essas bixinha, aí.. Cara que namora, casa com a mulher, tem filho, tem família e depois vira gay, entendeu? Pra amigar com homem. Isso não tem cabimento...
-Claro!! Claro que o cara casa, tem filho, faz família... Se ele se assumir gay a vida inteira, sofrerá preconceito a vida inteira. Muitas pessoas escolhem sofrer a repressão, serem infelizes e TENTAREM se encaixar no "certo" para não ter que sofrer o preconceito! Isso só prova que o preconceito existe, SIM. E só quando a pessoa percebe que homossexualidade não é uma escolha e não pode ser mudada é que ela consegue ser feliz e ir em busca da sua felicidade.

Mais legal foi que a conversa começou falando sobre um cara, comentando que ele hoje já tinha se assumido gay ("virou purpurina", nas palavras da minha mãe..) e minha tia comentou "Sempre foi muito bonzinho comigo, a gente ia pra escola e ele ia colhendo flores pra me dar. Eu chegava com aquele punhadão de flores que ganhava dele!" seguido pelo ataque enciumado do meu tio "Flor é coisa de macho, mesmo, tá vendo né, no que deu...". E, depois da minha tentativa de esclarecer os pensamentos do titio, uns bons 15 minutos de debate fervoroso, quando estávamos de saída ele para repentinamente no portão:
"Ah! To esquecendo a muda da florzinha que a mãe me deu..."
Claro, flor é mesmo coisa de macho. Vamos ver no que vai dar....

~ Lembrem-se sempre, leitores, que meus personagens e minhas histórias têm um pezinho na realidade, mas tem também muita coisa invetada para preservar a identidade das pessoas. Coloco e tiro personagens, falas e cenários, só o que se preserva é a essência da ideia. Portanto, aqueles dispostos a comentar o assunto tradado, por favor, sejam bem-vindos aos comentários. Mas aqueles que se proponham a atacar qualquer um dos personagens, por favor, mantenham-se em silêncio. Obrigada! ~



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