segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Alegre

"Alegre" seria a tradução literal de "gay", inclusive, chamar os homossexuais de "gays" surgiu do inglês. Todos concordamos com o estereótipo de homem homossexual, certo? O rapaz afeminado, de fala fina e doce, de gestos de borboleta... Alegre! E assim incorporou-se à língua - tanto à inglesa como à portuguesa - o uso de "gay". Gosto muito de uma cena em particular do musical Os produtores [em inglês, The producers] em que é apresentado o número Keep it gay (Seja gay). Na cena, o diretor Roger DeBirs defende que o roteiro que os produtores lhe apresentam não podem ser dirigido por ele; Roger acredita que para o sucesso no teatro, ele deve ser mais leve, brilhante... Alegre!

Em inglês o trocadilho está pronto: "Keep it light, keep it bright, keep it gay!", mas no português não. A tradução optou por usar "gay" mesmo, que é uma palavra - acredito eu - que até já foi incorporada ao nosso vocabulário. Engraçado pensar "Seja gay!" num mundo onde o preconceito ainda é tão forte. O preconceito ser forte, porém, não é a pior parte, a pior parte é que os héteros não lutam e não colaboram para que o preconceito deixe de existir; ao contrário, são os gays e bissexuais que dão seu jeitinho de não sofrer com o preconceito! Como? Assim.

Conheci uma menina na faculdade, sentamos perto, interagimos normalmente como duas desconhecidas agora inseridas no mesmo universo. Facilmente nos encontramos no Facebook, nem lembro quem foi que adicionou quem, só sei que batíamos altos papos, discutíamos política e formulávamos planos malignos de consertar o Brasil e até o mundo... Ela é mais velha que eu, me contou muita coisa legal de viagens que fez, me deu até umas dicas pra quando for planejar minha própria viagem. Trocamos links de sites legais, comentei com ela de revistas que lia e que achei que podiam interessá-la: resumindo, a gente se dava muito bem.

Um belo dia, no meio de um chat no Facebook, ela deu o jeito de encaixar na conversa: "Eu não sei se isso muda alguma coisa pra você, mas é melhor contar desde já: eu sou gay.". O quê você responderia, meu leitor? O que você faria? O que - mais importante - você sentiria? Passou pela minha mente fazer a boa e velha piada parafraseando Chapolim Colorado e dizer que "Suspeitei desde o princípio!", mas achei de mal gosto. Pensei em perguntar, brincando, se era uma saída do armário ou uma cantada. Pensei em perguntar o que é que eu tinha a ver com aquilo. Pensei em "aplaudir" e dizer os parabéns por ela saber quem é. Pensei até em dizer que me ofendia ela pensar que, depois de todos nossos papos produtivos, ela ainda pudesse sequer desconfiar que a homofobia pudesse caber em uma pessoa legal como eu. Sim, essa última era a ideia mais forte dentro de mim: eu me sinto mesmo ofendida de suspeitarem que eu seja homofóbica! Pode até suspeitar da minha sexualidade, mas não da integridade do meu caráter!

Bom, eu fico fodida com isso de que homos e bissexuais "terem" de dar satisfações acerca da sua sexualidade sob pena de perderem uma amizade já mais estruturada depois... Acho que os homofóbicos é que deviam usar um tipo de "chapéu da vergonha", tipo aqueles cones de burro para alunos mal-comportados. Mentira. Não acho certo punir ninguém por um pensamento, ainda que "irracional". Só acho que uma pessoa que conhece alguém e que a considera legal não vai mesmo cortar relações e desfazer a amizade simplesmente pela pessoa gostar de pessoas do mesmo sexo. Ou de pessoas dos dois sexos... É ridículo. Pior ainda, é que as minorias e vítimas do preconceito tenham que se prevenir contra isso. Que porra é essa??!

Ninguém tem que me dar satisfações de sua sexualidade e o pensamento homofóbico tem que ser eliminado com o tempo. Então o público GLBT não deve se render e sair por aí dizendo "Oi, prazer, sou gay. Tem certeza que quer levar essa amizade adiante?". Não que me ofenda quando as pessoas fazem isso, me dizendo que são gays (tenho mais amigos gays, homens e mulheres), mas me machuca um pouco pela situação social da coisa toda. Você acha que uma pessoa tem como pensar alegremente "vou contar a ele/a minha orientação sexual para evitar conflitos futuros..."? Você acha que é legal correr o risco de perder uma amizade que está começando bem por causa das pessoas com quem você fica? Será que dá pra ser feliz enquanto essa insegurança no relacionamento com pessoas novas existir? Eu acho que não.

E talvez, no final das contas, os gays nunca tenham sido genuinamente "alegres".

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