domingo, 23 de setembro de 2012

Falando grego

Muitas e muitas vezes eu me sinto falando grego, não só quando falo meu nome, mas também quando tento fazer piadas. Nossa! Principalmente quando tento fazer piadas, lançar trocadilhos elaborados aos interlocutores... Sempre acabo com indicador e polegar dançando seu balé, girando pela força do meu pulso, em um claro gesto de "sacou?", como quem diz "chicreti" de propósito para reforçar uma ideia anterior relacionada a erros de português; mas acabo sempre sendo interpretada como autora de erros escabrosos e enganos infelizes. É a vida, shit happens.

Lembro de uma camiseta que vi uma apresentadora da MTV usando uma vez, se não me engano, era uma tecla de shift que dizia:

"Shift
happens!!1"

Genial! O erro que a gente sempre comete, de deixar um "1" escapar no meio das empolgadas exclamações, o erro cometido propositalmente parafraseando um ditado popular americano [seria essa a classificação?]. Enfim, acho genial! Mas sempre que tento fazer isso, as pessoas ao meu redor não entendem... Que merda!!!!!1

Aí, me identifico com os humoristas "politicamente incorretos". Bom, essa briga é feia e não sou eu quem vai bater o martelo agora e indicar culpados e vítimas, mas vou falar um pouco o que penso. Sou bem em cima do muro nessa questão, admito, porque não gosto de piadas ofensivas contra negros, gays, mulheres, deficientes físicos nem nada; mas acho que uma certa maldade no humor não faz mal a ninguém. Ou melhor, faz sim, mas a gente tem que ser sábio pra interpretar, saber rir da tragédia.
Eu acabei de desistir da faculdade, voltei pra casa e minha mãe e minha vó encanaram que eu não podia ficar desocupada até o fim do ano só esperando o vestibular: arrumaram emprego pra mim em uma clínica veterinária. Lá eu fico um pouco no banho e tosa, mas também ajudo na clínica: moral da história, quando não estou tirando restos de cocô do fuiofó dos bichinhos, estou limpando caixa de areia de gato internado! Fazer o que? Eu falo desse jeito em casa, dou risada da "tragédia", mas só porque gosto muito de todo o tempo que passo na clínica. No fim das contas, minha piada só ilustra uma visão que muitos podem ter acerca da minha situação: ter largado um futuro promissor e ter me entregue a um emprego de (limpar) merda. Então quando está a família toda junta pro almoço e eu começo a imitar minha vó dizendo que tem "netas maravilhosas! Uma que já se formou em sei-lá-que-tem de alimentos e trabalha! Outra que tá fazendo faculdade agora, de um negócio-lá-de-administração, vai acabar tendo uma empresa! A outra que se formou jornalista, agora trabalha no jornal e também na rádio aqui de Piraju! Só a Calíope que, pela-mor-de-Deus, viu! Tava estudando lá, tinha tudo pra dar certo e me volta pra casa... Vai lavar cachorro!!" e todo mundo da risada do trash  da situação, não me sinto ofendida, mas minha cabeça entende que um emprego como o meu atual é geralmente visto como "emergente", como uma coisa provisória e bem inferior se comparado à graduação. E mais ainda, não larguei a faculdade para vir trabalhar, larguei pra tentar entrar em outra que seja o que eu quero, voltei pra casa pra correr atrás do meu Grande Sonho [que é aquele que te alimenta a alma, que brilha os olhos e que te dá razão pra vivier mesmo nos dias mais tristes sob o céu chuvoso mais cinza]. Então dou risada.
Seguindo o mesmo raciocínio, dou muita risada de piada de pobre, de caipira, de negro, de gay, de mulher! Percebo a homofobia, o racismo, a misoginia, o preconceito todo, mas reconheço a ilustração que a piada faz. Acho tosco quem se azeda por qualquer piadinha, mas fecho a cara quando vejo que a piada foi feita com intenção de machucar, mesmo. 

É, sou defensora da moderação, acho que o excesso é um vício tão negativo quanto a falta! Assisto stand-up comedy, sim; dou risada de piada de gorda, sim. Pois se todo mundo tiver sempre medo de ofender, então um dia só restarão as piadas de pontinho.

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