| Fones ligados. Desligada do mundo. |
Parei outro dia no ponto de ônibus, entediada, coloquei os fones de ouvido, me entupi de música enquanto esperava. Eis que chega um homem e uma mulher, ele se senta ao meu lado e ela prefere ficar em pé; cumprimentei-os polidamente e virei o rosto pro outro lado pra ver se o ônibus já chegava. Não.
Eu ali, viajando nas letras dos Beatles e minha visão periférica de repente mandou eu olhar pros meus dois acompanhantes: eles conversavam em Libras! Voltei meu olhar pra ponta do meu tênis encardido imediatamente, "Não, encare, Calíope.. É fascinante, mas não encare!". E isso foi suficiente pra começar minhas divagações....
Aqueles dois são provavelmente surdos, muito mais provavelmente ainda, não escolheram ser assim.Com certeza encontraram e encontram diariamente muitas dificuldades para ganhar a vida, tudo em função da surdez. Sentada ali, sem ouvir um sequer "pio", mesmo quando eles mexiam os lábios e pareciam soltar exclamações como "Aaah!' ou "Oooh!", me senti um pouco... um pouco ingrata. É verdade que sempre desconfiei de ter um leve problema de audição, de ter apenas 60% da audição porque nunca entendo 100% o que as pessoas falam, acabo deduzindo grande parte. É verdade também que eu tenho dor de ouvido constante, que ela já foi um incômodo grotesco uma época e que eu era muito estressada e irritadiça por causa disso. Mas não sou surda. Posso ter qualquer emprego, posso viver minha vida normalmente, eu ouço tudo (ou quase tudo), ouço pelo menos tudo o que é necessário. E mesmo assim, escolho a "surdez", escolho me desligar do mundo e não usar minha audição. O peso estava quase sufocando minha consciência, quando me toquei: eu estou usando minha audição, estou ouvindo música!
Parei de me sentir culpada por não querer ouvir o mundo em volta de mim e comecei a me sentir muito sortuda por poder escolher quando ouvir ou não. Ri. Ri mais alto. Senti um cutucão, me virei rindo, totalmente alegre, era o homem querendo saber que horas eram. Fechei o sorrisão de deboche, mostrei pra ele o relógio. Comecei a me sentir culpada por estar pensando nas vantagens que tenho sobre ele. Tirei os fones.
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