quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Surdez opcional

Fones ligados. Desligada do mundo.

Parei outro dia no ponto de ônibus, entediada, coloquei os fones de ouvido, me entupi de música enquanto esperava. Eis que chega um homem e uma mulher, ele se senta ao meu lado e ela prefere ficar em pé; cumprimentei-os polidamente e virei o rosto pro outro lado pra ver se o ônibus já chegava. Não.

Eu ali, viajando nas letras dos Beatles e minha visão periférica de repente mandou eu olhar pros meus dois acompanhantes: eles conversavam em Libras! Voltei meu olhar pra ponta do meu tênis encardido imediatamente, "Não, encare, Calíope.. É fascinante, mas não encare!". E isso foi suficiente pra começar minhas divagações....

Aqueles dois são provavelmente surdos, muito mais provavelmente ainda, não escolheram ser assim.Com certeza encontraram e encontram diariamente muitas dificuldades para ganhar a vida, tudo em função da surdez. Sentada ali, sem ouvir um sequer "pio", mesmo quando eles mexiam os lábios e pareciam soltar exclamações como "Aaah!' ou "Oooh!", me senti um pouco... um pouco ingrata. É verdade que sempre desconfiei de ter um leve problema de audição, de ter apenas 60% da audição porque nunca entendo 100% o que as pessoas falam, acabo deduzindo grande parte. É verdade também que eu tenho dor de ouvido constante, que ela já foi um incômodo grotesco uma época e que eu era muito estressada e irritadiça por causa disso. Mas não sou surda. Posso ter qualquer emprego, posso viver minha vida normalmente, eu ouço tudo (ou quase tudo), ouço pelo menos tudo o que é necessário. E mesmo assim, escolho a "surdez", escolho me desligar do mundo e não usar minha audição. O peso estava quase sufocando minha consciência, quando me toquei: eu estou usando minha audição, estou ouvindo música!

Parei de me sentir culpada por não querer ouvir o mundo em volta de mim e comecei a me sentir muito sortuda por poder escolher quando ouvir ou não. Ri. Ri mais alto. Senti um cutucão, me virei rindo, totalmente alegre, era o homem querendo saber que horas eram. Fechei o sorrisão de deboche, mostrei pra ele o relógio. Comecei a me sentir culpada por estar pensando nas vantagens que tenho sobre ele. Tirei os fones.

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