segunda-feira, 30 de julho de 2012

Perdidos

Como é que alguém "se perde" na vida? O que esconde a história daquelas pessoas que se vê na rua, sem teto, sem família, sem dinheiro e até mesmo sem sanidade mental? Hoje eu conheci uma dessas figuras.

Eu estava andando pela minha pequena cidadezinha interiorana paulista, vi aquele mendigo vestindo um moletom branco já bem encardido com o logo de uma escola particular da cidade. "Nossa, que bela propaganda! Estude na escola particular e garanta o seu futuro!", pensei. Ri por dentro, mas ainda triste de ver uma pessoa assim, perdida...

Uns passos mais tarde eu estava na praça central da cidade, onde tem um laguinho artificial. Estava uma tarde muito bonita, até tirei uma foto e fui sentar mais perto do lago, fiquei ali olhando os peixes e pensando na vida...
Piraju - SP
Foi aí que aquele mesmo homem que eu tinha visto antes, com o moletom de uniforme da escola, chegou. Eu estava sentada na beira do lago (à esquerda da foto) e há uns dois metros de mim tinha um banco de praça. Foi ali que ele se sentou, fumando uma bituca, quase queimando o dedo, e dizendo:
- Você fica tranquila... Eu não vou me aproximar de você... Não vou. Não... Não...
E eu não movi um músculo sequer, apenas sorri pra ele.
Ele conversou comigo, falava sem parar, mas a minha atenção estava em outros detalhes que não eram palavras, e falavam com mais clareza que sua voz. O olho escorrido de lágrimas, o nariz escorrendo, pingando por cima dos lábios sem ele nem se importar... A barba apontando na pele, um cascão no lado direito da cabeça, um ralado na orelha - deve ter caído, bêbado - os olhos vermelhos, muito vermelhos. A roupa rasgada e suja, era incrível que o tênis estivesse tão limpinho! O cheiro de xixi. "Como é uma pessoa antes de ser assim?".
- Hein? - ele tinha me feito uma pergunta - Eu ezztou falando com você, moça...
Fiquei sem ação. Pensei. Agi:
- I'm sorry... I don't get it... :(
- O quê? - ele acertou sua postura no banco
- I... don't.... - eu ia gesticulando - speeeeak... Portuguese! I'm sorry :(
- Hello! - ele sorriu, alegre - Hello!
- Oh, hi! - era uma surpresa um homem naquele estado e bilíngue! "Será que eu um dia vou me perder na vida?", afastei o pensamento.
- How are you? Hello! - ele estava entusiasmado
- Hi, I'm fine.. You?
- Hello!! JALJKSAKJSLKJDASHYEBSAHBDSASH English!
- Uh.. Okay... - é, o inglês dele não durou muito.

Mas nosso papo durou! Ele ficou quase uma hora ali sentado ao meu lado, me fazendo perguntas e contando histórias... Ele tem 46 anos, diz que trabalhou como jornalista no O Estado de São Paulo por 27 anos, disse que tem até uma mulher que o ama, que vai buscá-lo de helicóptero se for preciso! [até os mendigos tem cara-metade, isso fez bem pra minha auto-estima hahaha] Ele disse que é uma tal de blábláblá Senna, não entendi o nome da mulher, Eva ou Inês, não sei. E o Bruno, coitado! Largou da Joyce... Ele disse que já foi amigo pessoal do Bruno, lá em [droga, me esqueci o nome da cidade!]... O Bruno o convidou pra jantar e tudo! Só isso. Depois, ele também é professor de matemática, deu aula já. Ninguém pilota igual o Senna. Ninguém! Ele largava em primeiro sempre. Sempre! Mesmo com um carro menos potente, ele fazia as melhores largadas.

Depois apareceu um cara de cabelo branco, com uma pasta na mão, me cumprimentou, sentou-se ao lado do meu amigo embriagado. Falei inglês com ele, ele não entendeu e apenas abanou a cabeça, sorrindo. Conversou com o bêbado, chamando-o pelo nome [que esqueci também]:
- Mas, cara.. Você não precisa disso! Olha pra você! O quê eu vou fazer com você...?
- Me joga ali dentro, ó! - e apontava o lago - Pluft! E já era.. Joga eu, vai! Joga!
- Meu filho, do céu! Você tem dinheiro, e pra quê? Pra estar aí, imundo..! Sai dessa vida, rapaz, você sabe que eu considero você mais que meu irmão, pôxa! Vou ter que te mandar pra fora, será?
- Mandar eu pra fora? Pra onde? Fora onde?
- Mandar pra fora, pra se tratar...
- Fora?! Só se mandar eu pra Lua, então! HA-HA HA-HA HA! - ele gargalhou e eu gargalhei junto, até que meus olhos encontraram o do cara da pasta e vi sua angústia. Me angustiei também.
- Mandar aí pra Marília, Ourinhos, Rubião.. Onde tiver tratamento! Não posso mais ver você assim, cara...

Quando o cara da pasta foi embora, me levantei com ele. Acenei pro meu amigo embriagado: "I must go now, I'm sorry. Take care, man! Good luck..." e sorri, mas foi um sorriso pesado de sair. Fui andando com o cara da pasta, conversei com ele, em português, e descobri um pouco mais sobre o embriagado. Mas nenhum conhecimento é capaz de explicar o que faz uma pessoa se tornar um perdido na vida. Qual de nós será o próximo a se perder?

   carpe diem |:   .

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