sábado, 21 de julho de 2012

Ai, que sede!

E não me ofereça um copo d'água, não é dessa sede que estou falando... Eu falo é da inquietude da alma,da sede de viver.

Tenho essa teoria de que li uma literatura sonhadora demais, vi um cinema sonhador demais e acreditei demais em tudo aquilo. Dentro de mim, na minha alma, eu acredito 'piamente que meu diagnóstico de câncer vai me apresentar a uma milionária solitária também com câncer e que vamos fazer nossa "Bucket list" juntas pra fazer a vida valer a pena nos seus últimos dias; que meu romance super maluco ainda vai dar casamento, que um amigo vai aparecer do passado trazendo consigo um romance que eu jamais imaginei. Acredito que vou me separar do meu marido pra ir pra Madrid com um espanhol recém conhecido, me iludir e acabar indo pra Irlanda com minha alma gêmea encontrada em Portugal... Acredito que minha carreira vai me levar a uma vida rica e solitária, que meu único propósito de viver vai ser meu filho e então ele vai ter uma doença terrível, ter apenas dois anos de vida e eu - por ver nele uma pessoa maravilhosa - vou fazer de tudo pra que ele viva esses dois anos mais intensamente do que eu vivi meus 50. Acredito que vou estragar minha carreira nessa tentativa de apresentar meu filho à vida e que, no final, serei apenas eu sem ele, sem fonte de renda e com uma enorme realização dentro do peito...
Muitos vão achar trágicas as histórias que relatei acima, eu me animo. Eu tenho vontade de estourar pipoca só pra ver tudo isso acontecer! E eu quero que aconteça logo, eu não tenho paciência, quero asas, quero voar..!


Medo? As pessoas tem medo de ter câncer, tem medo de amar, tem medo de mudanças, de tentar o novo, medo de arriscar, de colocar todas as fichas em jogo. Eu não. Eu tenho medo é de estagnar, de não usar toda minha capacidade, de passar em branco na vida das pessoas, de me fazer comum, de me acomodar. Eu tenho medo de arrumar um emprego na minha cidade natal e acabar ficando por aqui, assim como ficaram meus pais. 
Tenho medo de um dia ver uma asa delta na Tv e pensar "credo!". 
Tenho medo de um dia dizer pros meus filhos que a faculdade que escolheram é muito longe.
Tenho medo de um dia ser olhada sem que as pessoas pensem que eu sou estranha.
Tenho medo de um dia abrir a boca e ouvir todos concordarem.
Tenho medo de um dia ser levada a sério.
Tenho medo de um dia me tornar "um homem tão razoável"...
Tenho medo de um dia desistir de ver o mundo.
Tenho medo de um dia não imaginar mais carinhas nas tomadas.
Tenho medo de um dia tomar remédios que curem minha insanidade.
Tenho medo de um dia ver a vida como se não fosse literatura ou cinema.


E chamem tudo isso de rebeldia adolescente que eu te mando t....!


Tenho medo de um dia descobrir que tudo isso era mesmo rebeldia adolescente... "Hormônios", como adoram dizer esses homens razoáveis que encontro pela vida... Tenho medo.


Eu quero viver minha vida, por que me deixo amarrar pela razão? Eu quero que se foda, quero sair e ver o mundo girar, quero que me chamem ♪♫ Miss Fahrenheit.  Sinceramente, minha vontade é entrar num busão e ir pra onde o dinheiro der, chegar lá e arrumar um emprego medíocre, conviver com gente, ouvir as histórias maravilhosas que muita gente tem pra contar, deixar minha história. Pegar meu primeiro salário, entrar num busão e ir até onde o dinheiro der, chegar lá e arrumar um novo emprego medíocre, conviver com gente nova, ouvir as novas histórias... Minha vontade é ser uma alma errante. Que se foda! Passando pela rodoviária da minha cidade, no carro com minha mãe, disse pra ela dessa vontade:
- ...vontade de viajar sem rumo, mãe! De sair e não dar mais as caras, de viver, entende? V i v e r . . !
- Ah, eu sei... - ela concordava com a cabeça e, dava pra ver, com a alma... - eu também tinha essa vontade...
Senti meus olhos ofuscarem o brilho. Um novo trincado brotou no meu coração. Minha fábrica de lágrimas foi ligada. Minhas mãos gelaram. Na minha nuca, alguns cabelos quiseram pular pra fora do meu corpo e eu senti a raiz de cada um deles. Minha boca secou. Engoli em seco:
- E passa...?
- Ah... - minha mãe piscou lentamente, assentindo com a cabeça - a gente perde isso na vida. Ela meio que vai tirando da gente...

Seguimos a viagem. Comecei, então a falar do tempo para quebrar o silêncio - o meu coração já tinha mesmo sido quebrado - e chegamos em casa como duas pessoas que não sonham mais devem chegar: sabendo o que tem que fazer e ignorando muito do que tem vontade de fazer.

    carpe diem (:    .

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