sábado, 12 de maio de 2012

Café com leite

Minha bisavó morreu quando eu tinha sete anos. Sobrevivi ao bug do milênio, mas foi estranho ver a vó Leo ir embora deitada, de olhos fechados e fria. O velório foi na casa dela, como ela queria que fosse, e eu me lembro até hoje do caixão ali na sala. Cheguei não lembro com quem, vi pessoas chorando, rostos tristes sentados ao redor de um objeto que eu desconhecia - foi meu primeiro velório, minha primeira perda na família - um caixão. Entrei na sala, passei os olhos espertos pelo caixão: minha vó [sempre a chamamos assim por ouvir minha mãe e meu tio chamando-a de vó] estava deitada entre flores, dormindo (?). Me aproximei do caixão, eu não me lembro de entender o que acontecia, nem de me pergutar nada, só me lembro de que as pessoas eram tristes ali dentro, de que o dia era nublado, de que eu vira muitos perentes chorarem e me juntara a eles meio que por coerção... Ali eu não estava triste, estava achando estranho só.
Parei ao lado do leito onde jazia minha vó, não entendi o porque de todos estarem vendo-a dormir, apoiei as mãos na borda do caixão. No nariz dela, percebi, haviam tufos de algodão e me perguntei como alguém respirava com aquilo... Soltei a borda do caixão, coloquei a mão esquerda no seu rosto: gelado. Me lembro até hoje daquela sensação: a pele fria da minha vó envolta pela minha mão, minha palma contra sua bochecha, tocando-lhe a face de um jeito que eu jamais tivera a liberdade de tocar. Levei a mão esquerda de encontro com sua outra bochecha, toquei a pele gelada. Em uma fração de segundo, meu braço foi puxado, me tiraram dali. Hoje eu entendo que eles deviam ter pensado que eu estava horrorizada. Não, estava até fascinada, na verdade...

Na casa dessa bisavó a gente tomava café da tarde. Ela fazia um pão caseiro daqui, ó! Sobre o qual a manteiga derretia sensualmente e que era acompanhado com um bom café com leite. Era sempre a vó Leo quem nos servia: preparava o café com leite bem quentinho, deixava ele bem clarinho, mas não quase branco; cortava o pão e a gente via a fumaça saindo em baforadas contínuas, as fatias eram grossas, mas não ofensivamente grossas, grossas apenas. Deslizava sobre o pão a manteiga, que seduzia o espectador em seu bailar de derretimento... Enquanto esperava e via isso tudo acontecer, eu me debruçava na mesa, apoiando a pontinha dos dedos e mantendo os olhos pra cima - na posição de quem espia - e sentia o cheiro da toalha de mesa. Não sei se é o amaciante da época, ou o quê, mas me lembro desse cheiro até hoje (uma vez, mexendo com minha mãe em umas roupas da vó Leo, senti de novo esse cheiro.. é cheiro dela, não tem discussão!).

Por que escrever tudo isso? É que acabei de tomar uma caneca de café com leite. Minha tia fez o café, eu dosei o leite, preparei meu próprio pão - que não era caseiro e nem quentinho - mas o gosto disso.. Não sei se foi o desenho da toalha, que é bem parecido com aqueles da casa da minha vó, o horário, a saudade de casa ou o quê... Mas o gosto foi de um café com leite da vó Leo.

Onde quer que esteja, se é que ainda "está"... Vó, olha só como eu cresci! Um beijo.

2 comentários:

Tá pensando no que eu tô pensando? Me diz aí!! (: