segunda-feira, 26 de março de 2012

Tamires

Quando pego o ônibus do meio dia e cinco, sempre vejo aquela menina. Cabelos pretos, maquiagem na cara, sempre com um batom bem vivo nos lábios... Os fones de ouvido a externizam do mundo, os dedos vivem a fabricar mensagens de texto, logo num primeiro olhar criei implicância àquela figura. Não sei, mas alguma coisa no seu olhar me fez pensar que ela fosse aquela personalidade vazia, aquela pessoa indiferente, aquele alguém que eu não gostaria de conhecer.
Noutro dia desses, pegando o mesmo ônibus, lá a encontrei mais uma vez, mudara a cor do batom... O ônibus se encheu de gente, eis que sobe um idoso. Prontamente a menina se levanta, acena para o velho: "Aqui, por favor" e nem um "Obrigado" a pobre ganhou. Seguiu-se a viagem.
* * *
Surpreendentemente, encontrei novamente a garota em um ônibus das sete e pouco da noite, o que me fez imaginar quanta gente nós não encontramos duas vezes no mesmo dia mas deixamos passar em branco, simplesmente porque não prestamos atenção à sua fisionomia. Havia muita gente no ônibus, comecei a olhar pra cada um, me perguntando quem ali eu já havia visto. Ou quem ali já havia me visto. Ou quem ali já tinha prestado atenção em mim.
Um casal idoso, um casal jovem namorando no ônibus, trabalhadores, homens de terno, mulheres com seus crachás pendurados sobre o peito, mães com sacolas, mães com seus filhos, pais com seu cansaço, filhos com seus fones de ouvido... Uma mulher negra com seu filhinho me chamou a atenção: o menino foi se sentar longe da mãe, num daqueles bancos solitários, porque ela também estava em um daqueles. Tinha uma mulher sozinha em um banco de dois lugares, imaginei que se fosse eu, eu cederia o banco para a mãe e a criança e me sentaria solitária em um banco de solitários... Passou o tempo, passaram-se pontos. Uma poltrona de dois lugares ficou vaga, a mãe então se mudou pra lá e chamou o filho.
Com a visão periférica percebi um movimento fora do comum, era a menina de batom vivo que se levantava. Deu um passo, esticou-se, cutucou a mãe do menino e, apontando para trás, disse:
- Olha, acho que foi seu menino que esqueceu...
A mãe olhou pra onde indicava a menina:
-Sim, é dele mesmo! Obrigada, viu, filha?
- Por nada. - e voltou ao seu lugar.
Quem diria? Uma pessoa que eu havia previsto tão odiável me deixou boquiaberta em duas nobres atitudes... É aí que eu entendo: preconceito é mesmo burrice! Mesmo nos assuntos mais supérfulos, é uma burrice! Vou me esforçar mais para julgar menos as pessoas, mas um último julgamento precisa ser feito...
Essa menina que vejo nos ônibus do meio dia... Nunca falei com ela, tampouco a vi conversar com ninguém, mas tenho a impressão de que ela se chama Tamires. Ela tem cara de Tamires! Um dia ainda vou perguntá-la e, seja lá qual for a resposta, faço uma postagem aqui pro Rascunho. E se for mesmo Tamires, aí será uma ótima história pra contar pros meus netos! Ah, como será!

Um comentário:

Tá pensando no que eu tô pensando? Me diz aí!! (: