sábado, 14 de janeiro de 2012

A vida real no altar

Véu e grinalda, vestido branco, tapete vermelho na igreja... O príncipe ali na frente, esperando a deslumbrante noiva que caminha ao lado de seu pai, entre as pétalas de rosa. Todos estarão presentes, todos estarão sem fôlego com a beleza da cerimônia, todos estarão emocionados, todas as lágrimas rolarão! Eis a descrição de um evento cristão aos olhos de um cristão, uma imagem analisada através da penumbra romantizada massiva.

Não que eu não seja romântica, sou sim. É que o meu romantismo é outro, não é esse blá blá blá religioso e falso, essa hipocrisia medonha que assombra os casamentos cristãos all over the world! As pessoas, a massa, vê e acha lindo as coisas mais desnecessárias, mais fúteis e descartáveis, não consigo engolir isso. Porque o príncipe ali no altar só é um príncipe porque pôde pagar pela cerimônia, porque pôde comprar sua fantasia de príncipe na Armani. A linda noiva deslumbrante só é deslumbrante porque pagou por todo o seu deslumbre, porque pôde pagar pela carruagem dourada que a trouxe ao seu casamento encantado.. Pf, encantado... Encantado de mentiras! De falsa felicidade, de falsa compatibilidade, de falsas esperanças de melhores relações!
As pessoas se casam pelo status da coisa, pela inveja das amigas, pelo espaço na coluna social, pela repercussão em favor do marketing da empresa. Cadê o amor? Cadê a compatibilidade? As almas gêmeas? Me chamem de careta, de quadrada, de sonhadora inocente, de adolescente iludida, de babaca. Pois eu sei que os babacas são os noivos.

"Cadê que você é romântica?" você me pergunta, com espanto. E eu respondo! Você acha que não acredito, que não espero encontrar minha alma gêmea? O príncipe encantado? Bom, se enganou. Eu acredito, sim, que cada pessoa tenha por aí a sua metade da laranja, e espero encontrar a minha, mas minhas expectativas de como será essa pessoa são diferentes. Eu não quero o lindo e rico homem másculo que me levará para jantares à luz de velas. FODAM-SE AS VELAS! Eu quero um homem íntegro, humorado, o cara que vai ficar do meu lado e só com sua presença já vai me deixar feliz. O cara que mesmo falando com a boca cheia ou sorrindo com fiapos de manga entre os dentes vai me fazer pensar "eu te amo, mesmo", com aquele ar de satisfação interior. E daí se a gente tiver de pegar o busão juntos? Vamos estar juntos, e vamos morrer de rir daquela senhora sacoleira com a saia florida. E daí se tivermos de rachar o aluguel? Se eu precisar pagar o jantar dessa vez? FODA-SE O PROTOCOLO!
Porque eu acredito que a chave do casamento é - não o amor, não a união, não a felicidade, não a cumplicidade - a chave do casamento é o compartilhar. Casamento é compartilhar vivências, compartilhar um lar, compartilhar ideias, emoções, sonhos, gostos e desgostos, espaço, liberdade, compartilhar a vida. Eu só vou me casar, só me atrevo a me casar com alguém que queira e com quem eu queira, compartilhar tudo. O dia que eu conhecer alguém que vai ter vontade de me ligar todo dia de noite pra me contar como foi o seu dia, e que despertar em mim o prazer de ouvir, eu caso. O dia que eu conhecer a pessoa que sonhar sonhos que eu gostaria de realizar e que quiser realizar os sonhos que eu sonhar, eu caso. O dia que eu achar quem se abra pra mim, me conte seus sentimentos e que me transmita a segurança de contar os meus, eu caso. O dia que eu e a pessoa que quiser compartilhar sua vida comigo e que tenha a vida que eu quero compartilhar aparecer, neste dia eu me casarei. Ou pelo menos vou fazer a proposta, né? Vai que eu não sou pro animal a pessoa com a vida que ele quer compartilhar e com quem ele queira compartilhar a vida? Daí já era, é hora de reiniciar e tentar ver beleza em outros dentes com fiapos de manga...

3 comentários:

  1. Eu gostei desse desencatamento que você escreveu, quando apontou que, para ser haver o príncipe e para haver a princesa, é necessário ter grana para ser o príncipe e para ser a princesa. Ou seja, o suposto sacrifício da festa é, de modo cru, só a demonstração da que, no fim das contas, não passa de um evento mediado economicamente (ok, além dos outros aspectos) e que, por sua vez, acaba definindo status. Mas, se esse status só é conseguido por via econômica, pela riqueza, então a virtude de ser casado está juntamente com a "virtude" de ter dinheiro o bastante para casar.

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  2. O Casamento Cristão: A cerimônia ocorre solenemente na casa do "senhor". Tem aquela coisa de vestido branco pra dizer que é virgem e pura (risos). A entrega da filha pelo pai ao noivo, pra toda sociedade saber que aqueles dois seres ali são propriedades privadas mútuas, como já dizia Immanuel Kant, O filósofo cristão "O casamento é um contrato pelo qual as partes cedem o direito ao uso de seus órgãos sexuais reciprocamente", (muitos risos). Ainda tem o juramento mais hipócrita de todos os tempos aquele de amar para sempre (Isso me lembra Raul: Porque quando eu jurei meu amor, eu trai a mim mesmo...

    Bom já comecei a "descer a lenha" e agora vou "com força".

    Uma das coisas mais estúpidas da vida é ter uma religião e seguir veementemente as palavras dum terceiro que adora "passar a sacolinha", mas esse não é nosso assunto central. Casar conforme a "cartilha" cristã é a coisa mais estúpida a se fazer com nossa liberdade. Sim, pois, no ato do laço matrimonial cristão, pretende-se uma união vitalícia, é um compromisso firmado perante o todo poderoso e não pode ser revogado.

    Pronto, começou tudo errado. A tendência natural dos bons cristãos pagadores de dízimo, é pensar: Agora posso engordar, não preciso cuidar do corpo, até por que isso é vaidade, é pecado... (Pecado? Pecado? Pecado? dá ódio só de ouvir!!!) Como uma pessoa que não se cuida, estará em condições de cuidar de outra? E por ai vai, no começo todos dizem que até é bom... casa nova, móveis novos, ou seja, empolgação efêmera advinda duma mera mudança de habitat. Logo após esse curto período, o pensamento doente que martela incessantemente começa a bater mais forte: Ela/Ele é minha/meu para sempre... estou unido/condenado à Ela/ele "forever"... “Oh my fucking god” que merda eu fiz com a minha vida... (Raul again: É pena que você pense / Que eu sou seu escravo / Dizendo que eu sou seu marido / E não posso partir... Raul é foda).

    É claro que a merda já começou lá pelos 12, 13 ou 14 de idade no máximo, quando o infeliz não questionou o criacionismo e aceitou como bom cordeiro a doutrina da alienação para ovelhas doentes (Para Nietzsche, cristão=doente). Sempre achei nojenta essa forma cristã de encarar as coisas, esse troço de juras de amor eterno, se alguém me perguntar se vou amá-la para sempre, responderei: depende. Mas depende de que? Depende de você mesma oras!!! Você SE FARÁ amável para sempre??? Fazer-se amado é uma atividade que deve ser constante, demanda muita concentração e necessita de reciprocidade. Cansei de bater... Falemos então de belas paisagens mentais agora.

    Desde que me esclareci – e isso foi cedo – rasguei a “cartinha”, alegórica e literalmente, desde então, passei a construir novos signos e significados para substituir aqueles que acabara de destruir. Cito agora minha versão de uma cerimônia matrimonial digna de admiração:

    Num campo verdejante, com grama baixa, num fresco fim de tarde de primavera; pessoas convidadas por sinceros e puros sentimentos, poucas e boas obviamente, ordenavam-se confortavelmente para contemplar a noiva, vestida subjetivamente bela à ela mesma, e o noivo, do mesmo modo trajado. Ambos discorreriam aos convidados solenemente os motivos daquele amor, tal discurso seria breve, e poderia retratar, por exemplo, a história vivida até o momento pelos amantes. Depois disso uma festa não suntuosa, mas absurdamente bem preparada seria realizada em comemoração à união Civil, que poderia acontecer ali ou não. O Céu aberto, o Cosmo como platéia, e não as pesadas abóbodas de concreto ornamentariam essa paisagem, que pareceria aos olhos dos que ainda não aprenderam a ousar, terrivelmente onírica.

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  3. Continuação do comentário anterior (hahaha... não coube tudo =P


    ...Para que meu comentário seja completo ainda devo tratar das características intelectuais e morais da minha pretensa noiva. Mas essa tarefa já foi realizada , uma bela e muito sensata forma de escolhermos alguém para nos unir, é seria como minha amiga citou acima, analisando o quanto você está disposto a compartilhar com o bem amado. Pois como aprendi com o megalomaníaco alemão: na velhice, só a companhia importa. Essa sem dúvida, é a frase mais esclarecedora sobre como devemos escolher nossos parceiros. Por fim das 3 formas gregas de amar: Eros, Filia e Ágape. Há tempo estou certo que escolherei minha amada a partir da mais elevada forma dentre as formas de amar. Obviamente sem nunca menosprezar as outras duas que em minha opinião são as responsáveis por aquela bendita paciência que devemos ter com a nossa outra metade.

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Tá pensando no que eu tô pensando? Me diz aí!! (: