sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Eu sou Capitu...

Nasci um bebê normal, além de lindo. Cresci perfeitamente bem, obrigada, sempre fui falante... Um dia, porém, simplesmente emudeci. Silêncio. Nada. A pequena menininha que falava o nome de todas as coisas quando as perguntava sua mãe, de repente se calou. Como se fosse uma manifestação revoltosa contra a cobrança... E eu continuei calada.
Preocupada, minha mãe se apegou à crença popular, resolveu praticar a simpatia de colocar um pintinho de galinha pra piar dentro da minha boca... Segundo a sabedoria pop, isso traria de volta a fala da criança. Na falta de um pintinho, foi o canário que meu tio tinha que colocaram pra resgatar minha fala do fundo da goela. O danadinho fez tudo certo, cantou na minha boca como calcularam os adultos e eu comecei a falar de novo. E tudo errado...
Minha mãe me diz que eu aderi a um dialeto, palavras tipo "merrê-mequê" eram tudo o que eu soltava, ninguém me entendia. O tempo me consertou, como vocês bem leem, e acho que essa história evidencia meu compromisso com a nossa língua, desde cedo. Foi com ela o meu primeiro casamento.

Atualmente sou Capitu... "Capitu" porque é a figura literária da mulher adúltera - mesmo que haja discórdia - e eu tenho cometido adultério..... Clarice Lispector já disse: " Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.", no texto em que declara seu amor à língua portuguesa e eu também me sinto assim. Mas tenho traído esse idioma tão peculiar.
Já faz um tempo que estudo inglês e, quanto mais me aprofundo naquele idioma "preciso e belo", mais abandono as tortuosidades e complicações apaixonantes de minha língua-mãe.
Eu amo o português, suas ambiguidades, suas complicações que obrigam a manter-se atento, suas sinuosidades sintáticas, suas muitas maravilhas morfológicas... Mas o inglês me cativa também. Sou bígame? Sou adúltera? Sou culpada de sê-los?


Me perdoe, língua portuguesa... Sua impressão estará sempre na minha alma, seu lugar, sempre no meu coração. O inglês, eu garanto, só me roubará a voz e os lábios,de resto, serei eternamente sua. Por favor, pare de gritar à minha orelha agora, deixe de ciúmes...

Um comentário:

  1. pior é quando fico procurando a palavra em português para uma expressão inglesa => crise de identidade, hehe.

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Tá pensando no que eu tô pensando? Me diz aí!! (: