quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Oi!

Eu odeio sair de casa. Sou cem por cento ambientes internos. E creio que seja um grande defeito essa minha indiferença ao ficar semanas e semanas sem olhar pra cara de ninguém além do entregador de pizza. O fato é que nas férias eu passo a conviver apenas com quem quer/precisa conviver comigo e com quem simplesmente acaba convivendo mesmo sem querer. Eu não tenho a necessidade de procurar pessoas, eu não as procuro, eu me tranco em casa e enquanto tiver comida, água, energia e suprimentos de higiene eu estou de buenas. E hoje a comida acabou. Eu estava ao computador, escrevendo, quando surgiu a necessidade de sujar o teclado: fome. Na verdade foi porque eu li uns textos que falavam de uma propaganda do Doritos que me deu desejo. Fui ao mercado buscar Doritos, então.
O mercado é a duas quadras de casa, a contragosto, então, me lancei à caminhada. Atravessei a rua, desviei minha cabeça dos galhos baixos de uma árvore pensando que ser alta não é tão bom assim, passei indiferentemente pela sorveteria. Em frente do salão de cabeleireira, havia uma mulher sentada fumando e uma criança: um pedacinho de gente que não dá metade da minha perna. Um pontinho cor-de-rosa se movendo com energia e agilidade, sua falinha até bem eloquente para a idade seria predominante na rua se não fosse um carro que passou. Fui me aproximando e quando cheguei bem pertinho, ela estava no alto de um degrau, eu vinha pela parte de baixo; fui chegando e seus olhinhos me encontraram no seu caminho. Sua frase ininteligível foi interrompida, as mãozinhas se juntaram timidamente em frente o tronco, a cabeça se inclinou - se não me engano - para a direita.
"Oi!"
Ah! Eu queria poder falar, queria que meus olhos fossem câmera digital pra ter filmado aquilo! Queria imitar o "Oi!" curtinho e entusiasmado que a menininha me lançou... Thoizinha mazi fofa!

Até pra uma alma solitária como a minha, até pra quem não liga pra companhia na maior parte do tempo, até pra quem não gosta muito de expressar seus sentimentos.. Aquela cena me roubou um sorriso, o sorriso mais gostoso de muuuito tempo. Porque eu sou feliz de uma felicidade calculada, sou feliz porque sei que minha vida não é triste, ora. Mas nenhuma felicidade se compara à espontânea, aquela que você não espera e que nunca imaginava que ia te fazer feliz mas que PUF! aparece.

Bom, continuo não gostando muito de gente, evitando, até... Ainda não gosto de sair de casa, prefiro minha privacidade.. Mas hoje, quando tive que sair da minha zona de conforto e fazer o que não gosto, ganhei uma recompensa que há muito eu esperava. E é por isso - também - que eu não acredito em Deus. Tem tanto jeito da gente se fazer feliz, tanta coisa pra te roubar um risinho.. Quem precisa do divino? Basta, pra mim, ser humano.

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