Acabei de puxar o ar bem profundamente para os meus pulmões. Beeeeeeeeeeeeem profundamente, mesmo. E talvez nesse exato momento uma doença, até então em estado latente no meu organismo, resolvesse se manifestar em um ataque letal. Eu cairia da cadeira, agonizando por alguns sintomas dolorosíssimos, meus pais ouviriam o som do meu choque contra o piso, viriam acudir, me veriam espumar pela boca. Ou sangrar, depende... Eles seriam enérgicos em me levar ao hospital, morreriam de nervos por todo o caminho, furariam o sinal! No hospital, minha mãe reclamaria atendimento, aos berros; meu pai receberia a ajuda de estranhos pra me carregar. E eu mais perto da morte.
De novo. Beeeeeeeeeeeeem profundamente, mesmo. E talvez a fadiga que senti nos últimos três dias seja efeito de um pequeno corte no meu pulmão direito. Esse cortezinho surgiu de um tombo besta: eu me assustara com um inseto na janela e dera dois passos de defesa para trás, tropeçara na cadeira e caíra de costas. Alguma razão desconhecida ocasionou o leve rompimento do meu tecido pulmonar. Se é que essa colocação é medicinal e biologicamente correta... Bom, esse rasguinho que até agora era inofensivo, cedeu à pressão do ar e impediu-o de seguir seu curso adequado pelo organismo. Shhhhhhh... é o som do vazamento de ar, como num pedido de silêncio em respeito à morte que está por vir. "Shhhhhhh... cala-te, Calíope!" E eu mais perto da morte.
Insisto. Beeeeeeeeeeeeem profundamente, mesmo. Talvez um inseto perdido tenha sua rota de voo incluindo um ponto marcado dentro do raio de alcance da minha inspiração. De olhos fechados, só percebo o bichinho quando ele já está na minha traqueia. E ali ele se entala, e meus pulmões em uma ânsia de inflar, e meus olhos arregalados em desespero, as narinas se abrindo na tentativa sôfrega de puxar o ar. Minha glote está travada em um falho mecanismo de defesa, começa a mudança de cor na pele do meu rosto. Eu consigo pensar eu consigo pensar que quero ajuda, que quero alguém que perfure o meu pescoço com uma caneta bic, igual na Tv; mas meu estúpido corpo humano perde o controle das pernas; só deixa os braços alcançarem o peito, o pescoço; faz os olhos procurarem um milagre ao redor. Os lábios roxos, os pensamentos esmaecendo, minha voz de ideias se calando aos poucos. O bichinho já está imóvel dentro de mim. Minhas mãos, minha pele já se tornam frias, meus últimos gemidos de asfixia pairam no ar. E eu mais perto da morte.
Sem medo. Beeeeeeeeeeeeem profundamente, mesmo. E talvez, apesar da hora da noite, ainda toque a campainha. E destraidamente, com o relógio biológico confuso, eu fosse atender sem desconfiar. Podia ser um bandido armado, um estuprador. Ele podia me usar de refém e entrar em casa pra aterrorizar todo mundo. Mataria meu pai, estupraria minha irmã e eu, talvez estuprasse minha mãe, ou a matasse depois de torturar. Eu, sem dúvida reagiria, tentaria defender minha irmã. Quem sabe acertasse um chute no saco do cara e então ele atirasse em mim. A dor do tiro, bem no meio do peito, é a dor de um corte, a de um osso quebrado, a de uma cirurgia sem anestesia, tudo junto. O gosto na boca é o do meu próprio sangue, a imagem nos olhos é o semblante de dor da minha irmã, o som nos ouvidos é dos gritos - de dor por parte de um, de raiva por parte de outro. Na mente prevalece a ideia de impotência. E eu mais perto da morte.
Eu desafio o destino. Beeeeeeeeeeeeem profundamente, mesmo.. E talvez um avião tenha entrado em pane uns minutos atrás. Depois da luta pela sobrevivência, o piloto percebe que é impossível retomar o controle. Ele é obrigado a tentar fazer o grotesco abutre de aço a cair o mais delicadamente possível. Num minuto estou sentada à escrivaninha, desafiando o destinho com o meu quinto suspiro profundo, noutro, soterrada entre o que já foi meus pertences, a parede do quarto, meus escritos. Tudo varrido por uma ave metálica descontrolada... Sob os escombros, sentindo o calor emanar, sentindo feridas abertas, sentindo ossos quebrados e já sem sentir as pernas. A dor de uma fortíssima pancada na cabeça, o tato a dizer que tem areia grudando no sangue, a mente nem sabe mais quanto tempo passou. Todos os passageiros já estão a salvo, minha pior foto já foi divulgada pela mídia, a dor virou rotina, o desejo de que exista um deus capaz de me livrar daquilo tudo. E eu mais perto da morte.
Então desafio Deus. Beeeeeeeeeeeeem profundamente, mesmo. Talvez ele fique irado e me mande diretamente pro inferno. Estou escrevendo e então PUF! estou nas profundezas...
Bom, nada disso acontece. Nunca vai dar pra dizer se tem uma doença escindidinha, se tem um furinho no pulmão, se um inseto vai entrar pelas suas vias aéreas, se um estuprador vau tocar a campainha, se um avião vai cair na sua cabeça, se Deus existe ou não. Eu suspiro e nada disso acontece. O tempo passa: e nós mais próximos da morte.
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