Esse ano eu fui estudar numa escola nova. Não conhecia quase ninguém lá. Exceto uma professora do ensino fundamental I, uma moça cuja filhinha fazia aula de natação um horário antes de mim, na mesma academia. A gente se conhecia de lá. Uma vez, na rua, ela me viu e disse "Oi... Letícia!" e no tempo que a fala dela foi reticências, a minha fala foi "Oi!", só depois ouvi ela me chamar de Letícia; mas eu tava só de passagem e não deu pra corrigir...
E não é que a gente se cruza pelos ambientes da escola e ela, de novo, "Oi, Letícia! Tudo bem?". E eu, muito idiota "Oi.. tudo sim." Não a corrigi, não imaginei o quanto eu me encontraria com ela daquele dia em diante....
Toda vez era a mesma coisa: "Oi, Letícia" pra cá, "Oi, Letícia" pra lá... Teve até um dia em que ela me disse "Ô, Letícia, faz um favor pra mim? Vê aquela..." E eu fiz o favor, disse "De nada" depois que ela agradeceu e não corrigi a coitada da professora.
Bolas de neve só tendem a aumentar, certo? Eu sei que eu devia ter dito, "Olha, eu sou a Calíope, você deve estar me confundindo com alguém..." e sorrido gentilmente. Mas eu tenho essa mania de querer fazer todo mundo se sentir sempre bem, e não gosto de deixar ninguém se sentindo embaraçado, daí que eu fiquei sem jeito de cortar o barato da professora e deixá-la constrangida ao perceber que milhares de vezes ela me chamara pelo nome errado... E a bola de neve sempre a rolar.
Junho. Festa junina da escola. A escola alugou um clube. Alunos de 9º ano e de 3º médio ajudando na decoração, montando barracas. Professores também. Os de ensino fundamental... E a professora estava lá. Com sua filhinha, a Letícia de verdade.
A certa altura, eu desenhado a placa da Cadeia do Amor, me chega a menininha, feliz da vida
- Oi!
- Oi, tudo bem?
- Um-hum. Eu também sou Letícia.
- [droga! agora eu ia destruir a alegria de uma CRIANÇA! Cali, você devia ter desapontado a professora...] Ah você se chama Letícia? Eu me lembro de você, das aulas de natação, você lembra?
- Um-hum. Como é seu nome?
- [droga! a questão nome era o que estava em foco na mente da criança, eu não ia escapar viva...] Calíope. [olhei fundo nos olhos da menina]
- Calíope? [sua testinha se contorceu numa ruguinha de dúvida profunda e de desapontamento]
- Aham. É um nome bem estranho, né? [minha estratégia passara a ser fingir que a professora jamais me chamou de Letícia, ou que eu nunca tinha me dado conta do engano]
A menina correu em direção à mãe, puxou-lhe a camiseta, cochichou-lhe ao ouvido. A professora falou alguma coisa. Letícia voltou. Conversamos bastante, ela esqueceu o caso do nome.
Feliz. Achei que tinha acabado a história da minha identidade de Letícia. Mas eu encontrei com a professora, toda embaraçada.
- Ah, Calíope! Olha só... Eu achando que você era Letícia.. [rindo meio desconcertada]
- Haha.. Poizé... A Letícia tava toda animada que ela tinha uma xará... [rindo totalmente desconcertada]
- Mas eu te confundi com a outra, foi isso..
E a professora se foi, lidando com papéis decorativos, se desgrudando duns fios de cola quente.
OH NÃO! Agora ela tá achando que eu tenho uma irmã gêmea??! Tive palpitações de nervoso, era só o que me faltava! "Te confundi com a outra" e eu refletia, o quê será que ela quis dizer? Passei umas boas horas preocupada, com medo de receber alguma pergunta sobre minha "irmã" e não ter coragem de corrigir de novo, com medo de ter que responder à pergunta "Letícia ou Calíope?" e ficar sem ter o que falar...
Até que meus níveis de desespero atingiram o limite e eu contei a história pra Janaína
-...e agora eu acho que ela pensa que eu e a Letícia-eu somos gêmeas!! [em pânico]
- [sem nem mudar a expressão facial] Aaah Letícia? É a menina do 9º que eu falei que parecia com você!! Lembra? Eu vou mostrar ela pra você...
Só então eu realmente respirei naquele dia. E nunca fiquei tão feliz de ser apresentada a alguém, nem de descobrir que alguém se parecia comigo. (Não acho que nos parecemos, mas fiquei feliz). Caso encerrado.
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