quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Bactéria

Ano 2005 / Quinta série - atual 6º ano do fundamental
Mestre série silver
Quem? Marcelão, o Bactéria >> Professor de ciências

No ônibus pra ir pra escola durante a tarde tinha a Suely, que cuidava dos pentelhos para que eles não corressem o risco de ser decapitados com a cabeça pra fora da janela; logo, éramos proibidos de abrir as janelas mais de um dedo. Em 2005, já estudávamos de manhã = não tinha Suely. E eu me sentava sempre com o professor de ciências, o Marcelão. Em geral não se gostava dele, ele tinha caspa e vivia com saliva nos cantos da boca, lembrando catupiry. Ele também não fazia o tipo gentil, tratava as pessoas como elas mereciam (no julgamento dele, claro) e perdia o amigo mas não perdia a piada (sempre um comentário sarcástico). Mas o Bactéria simpatizava comigo, ou eu que puxava muito o saco dele...
Só sei que eu amava o Marcelão, a gente fazia experiências nas aulas dele e apesar da falta de paciência que ele tinha com a gente (imaturos da quinta série) eu achava ele sensacional. O Marcelão tava sempre meio que 'puxando a sardinha' pro meu lado, quando eu brigava com alguém na sala, por exemplo, ele só dava a bronca enquanto eu estivesse por cima. Apesar de eu ter causado alguns conflitos nas aulas dele, também, ele nunca me mandou pra diretoria... Coisinhas assim.
Mas ele ganhou mesmo pontos no meu conceito, não por me bajular, mas por causa daquela aula em que ele mostrou que tratava as pessoas como elas pediam pra ser tratadas.
Conceitos de astronomia, depois de uma exaustiva aula de teoria para a qual todo mundo parecia não dar a mínima, eis que veio a pergunta à tona, na voz do Bactéria "Então o Sol nasce a...."
ao que a sala completou com uma mistura de oestes e lestes incertos... "Aonde nasce o Sol, gente?!" e cada um respondeu de novo o inverso do que tinha respondido antes, resultando na mesma mistura de incerteza.
"O Sol nasce a LESTE! Não é isso? O Sol nasce a leste e se põe a oeste!". E as nossas caras de pessoas totalmente por fora deve ter despertado a ira do Marcelão: "Todo mundo! Peguem os cadernos e escrevam 10 vezes 'o Sol nasce a LESTE e se põe a OESTE!" a gente, "Aaaaaaahf!" e ele, "Vamos! Eu vou dar visto! 10 vezes!" algum idiota reclamou, rabujou, e o Marcelão "Tá reclamando o quê? Devia agradecer de aprender alguma coisa! Vamo lá, QUINZE  vezes no caderno!" E nós escrevemos...
O Sol nasce a leste e se põe a oeste....
O Sol nasce a leste e se põe a oeste....
O Sol nasce a leste e se põe a oeste....
O Sol nasce a leste e se põe a oeste....
O Sol nasce a leste e se põe a oeste....
Todas as malditas quinze vezes. E eu terminei e fui levar pro Marcelão dar o visto dele: "Aprendeu, Calíope?" (ele sempre fazia questão de falar meu nome com o 'i' bem forte e o 'o' bem redondo, sem deixar soar como um 'iu'...) "A-ham" e ele, "Então? Como é que é?" e a engraçadinha aqui inventou de tirar uma com a cara do mestre: "O Sol nasce a OESTE e se põe a LESTE", respondi dando risada. Ele me fuzilou e emendou "Aaara, engraçadinha! Volta pra lá e pode escrever mais 10 vezes, pra aprender!" eu era corajosa, "QUÊ?", mas ele era um ditador... "Quer 10 ou QUINZE?!" e eu escrevi mais dez malditas vezes que
O Sol nasce a leste e se põe a oeste....
O Sol nasce a leste e se põe a oeste....

Com o Marcelão eu aprendi que os favoritismos existem, sim; mas tem limites. Ele não podia me dar total liberdade pra ficar tirando com a cara dele: amigos - amigos, professor - aluno e ponto.
Valeu, Bactéria! Não só pelos ensinamentos de ciências, mas pela companhia no ônibus, pelas discussões vencidas contra meus inimigos da sala... Um professor, pra ser Mestre, tem que saber lidar com gente. Tem que dar liberdade, se gostar do aluno; mas deve manter o controle da sala como sala no momento da aula.

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