sexta-feira, 29 de julho de 2011

Pipoca, sofá... A-ÇÃO!

Tem coisa melhor do que um cine pipoca no sofá de casa? Nada como um DVD, um enorme pote de pipoca e umas horas sentindo a atuação de bons atores, se encantando com roteiros de bons roteiristas, admirando o trabalho bem feito de bons diretores, invejando os passos de alguém no tapete vermelho da Academia... Bom, pelo menos pra mim, não tem nada melhor!
Eu não sou, de fato, uma cinéfila de plantão. Ainda não descobri o porquê, mas minha cabeça vive esquecendo os nomes dos atores, confundindo as tramas de filmes, dando furos fenomenais com relação a datas. Mas não tem nada melhor do que uma boa posição no sofá para o corpo enquanto a mente se entretém com um desfecho e o coração se entrega a sentimentos que não lhe pertencem. Quem nunca chorou em um filme, não sabe o que é cinema; quem nunca ficou horas a fio repassando uma história na cabeça, não sabe o que é cinema; quem nunca perdeu o sono em frente à Tv, mesmo em posição super conveniente ao cochilo... não sabe o que é cinema.

Acabei de assistir "Malena", é italiano. Não dei muita fé, no início, achei que seria chato e que não valeria a pena. Eu estava morrendo de sono e imaginei que seria só me espichar no sofá e ZZZzzzz... Pelo contrário, mas não MUITO pelo contrário. Eu acabei ficando presa à trama do filme, acabei aderindo ao amor não correspondido do qual sofria Renato e os carneirinhos que já estavam sendo projetados aos saltos no meu balãozinho de pensamento simplesmente evaporaram.

"alguém melhor do que eu já disse que o amor mais verdadeiro é o amor não correspondido..."

Nesse momento do filme, Renato se deixa convencer da ideia. E eu também há muito já concordava. Nós tendemos à fantasia... Nós imaginamos qual a verdade que gostaríamos de viver, mas jamais realmente tentamos vivê-la. A atitude meio paranoica de Renato, seguindo, espiando, Malena é um retrato disso. A gente desperdiça as nossas vidas assim, banalmente, correndo atrás das verdades fantasiosas que não queremos realmente viver. A gente gosta mesmo é de ficar remoendo o que "não deu certo", a gente gosta de pensar no que aconteceria "se...", a gente sente prazer em se vitimizar, em se arrepender. É triste...
Acho que o que mais valeu a pena no filme, pra mim, para o meu gosto, talvez até para o meu estado emocional do dia (acho que isso é o que mais influencia nos nossos gostos e desgostos), foi a história de amor. Acompanhar parte da história de vida de Malena através do ponto de vista de um desconhecido que a viveu também, sem que ela se desse conta. Achei isso sensacional no filme, gostaria de ter pensado nisso, gostaria que tivesse sido minha ideia. Pensar sempre me intriga, e ainda estou naquelas horas pós-filme em que ficamos gastando sinapses com a trama do longa... Só de pensar que eu, você, qualquer um pode ser a Malena de alguém; que todos talvez tenhamos uma importância na vida de algum desconhecido... Só de pensar nisso eu já fico encabulada, pensando no quão estranha vou me sentir se um dia alguém me ajudar a recolher as laranjas do chão e em seguida disser "Buona fortuna!"... Acho que minha única saída vai ser fazer uma cara de Malena, seguir andando e depois postar alguma coisa sobre o ocorrido, aqui no Rascunho, claro!

[...]

[Pelo tom meio amargo, meio filosófico, meio apaixonado desse post, eu o dedico àquela pessoa que curte esses textos mais emotivos; àquela que diz que isso 'é do signo' e que, assim como eu, tem muita vontade de ser Camões ;D]

Cruz na porta da tabacaria
Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem- 'star que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via?
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.


Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa (1888-1935)

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