Mas havia também as formas carinhosas fundamentadas, que é o caso do "Pudim de mijo". Tá. Nem sempre carinhosas... Mas sempre fundamentadas!
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| Você jamais verá a calda com os mesmo olhos.. |
Muitas frustrações carreguei em função disso: nunca pude dormir na cama de cima da beliche (pra não afogar minha irmã em mijo na cama de baixo), demorei para ganhar um colchão novo (eu sempre herdava o velho da minha irmã, já que eu ia mijar nele, mesmo..) e ganhei ainda o apelido carinhoso de Pudim de mijo.
Nada de Docinho de coco, Briochinho de cacau, Chuchuzinho, ou qualquer outra coisa comestível e fofa; mas sim um lindo e amarelo pudim... de mijo! Nada fofo e, muito menos, comestível. Eca!
Sabe, não tenho culpa!! Mijava na cama, sim, e daí? Eu tinha medo de levantar de madrugada pra fazer xixi no banheiro, sempre achava que podia segurar até amanhecer, sempre me enganava... Eu adorava bater em lagartixas com uma vassoura pra derrubá-las e fazer com que largassem o rabinho, assim eu podia pegar o rabinho, segurá-lo entre as mãos e senti-lo pulando. Era tão mágico! E o peso na consciência por dar vassouradas a esmo em lagartixas inocentes me fazia achar que de madrugada, no escuro, eu seria um alvo fácil à sua revanche... Me imaginava pisoteada e carregada por inúmeras lagartixas de rabo mais curto. Mais curto por culpa minha! Culpa do susto que eu dei que as obrigou soltar o rabo...
Às vezes eu até levantava. Dava dois passos em direção à porta, até que meus olhos já tivessem se acostumado com o escuro e eu conseguia enxergar uma forma ou outra na escuridão... Olha, não é a cabeça do meu ursinho de borracha? Mas, por que está se mexendo? Está se movendo em minha direção ou é impressão minha? AAAAAAH!! E, num pulo, já estava deitada de novo, com as cobertas tampando a cara, com o medo tremendo o corpo todo, com a bexiga prestes a explodir.
Meus pais se esforçaram, verdade. Cada dia vinha um me acordar de madrugada pra fazer xixi (minha mãe muito mais frequentemente), mas eu sentava na privada e nada. Era como se o xixi fosse psicológico! Me lembro até hoje da cara de sono da minha mãe fazendo som de sopro entre os dentes pra me "estimular" a fazer xixi. "Shhhhhhhhhhhhhh.. Vai, Calíope, mija logo pra não fazer na cama depois!", mas eu nada. Ela depois abria um fiozinho de água na torneira "Vai, Cá.. Se concentra no som. Ouve! ..... Tá vindo o xixi?". Ah, como era triste ter que murmurar aquele "Não, mãe.."!! Lembro de balançar nervosamente os pés que nem alcançavam o chão. "Desce.", minha mãe desistia, e eu pulava da privada, com a cara e o sentimento do fracasso... Erguer as calças era o meu troféu da derrota, a caminhada de volta pra cama acontecia ao som de vaias de uma plateia invisível. Talvez fossem as lagartixas.
Ser o Pudim de mijo me ensinou a deixar o orgulho de lado... Não era segredo pra ninguém em casa, e minha irmã ainda ficava falando que eu cheirava a mijo, o que era uma grande mentira!! Afinal, eu tomava banho (e bem mais do que ela, ainda, já que sempre acordava mijada). E com 12 anos uma amiga me convidou pra dormir na casa dela pela primeira vez. Foi tenso. Meus xixis na cama já não eram diários, mas eventualmente ainda marcavam presença: eu acordava no meio da mijada, que ódio! E só dava tempo de segurar metade e correr - com as calças molhadas - até o banheiro. Cheguei a achar que jamais deixaria de ser Pudim de mijo! Contei pra ela que eu fazia xixi na cama.
E para minha surpresa, ela disse uma frase que levantou meu olhar envergonhado, que me permitiu respirar de novo - aliviada -, que com certeza me trouxe um brilho no olhar. Ela me deu a compreensão que eu nunca achei que poderia encontrar em alguém! Ela não me apelidou de Pudim de mijo, nem riu da minha catástrofe molhada... Ela disse "A gente dá um jeito!".
E demos mesmo um jeito!
Colocamos o despertador em dois momentos diferentes da madrugada, e quando tocou ela se levantou comigo. Foi acendendo as luzes da casa até o banheiro e ficou na porta me esperando. "Conseguiu?", perguntou na primeira vez. E, por incrível que pareça, EU TINHA CONSEGUIDO!
Foi assim que ser Pudim de mijo me ensinou a ser sincera, a confiar nas pessoas, e como é grande o valor de uma amizade de verdade. Ela nunca usou o fato de eu ser Pudim de mijo contra mim (nem mesmo um ano depois, quando brigamos feio e ficamos umas semanas sem nos falar), nunca tirou sarro, nunca fez nenhuma piada, nunca!
Não tenho orgulho de ter sido Pudim de mijo - pelo contrário! Sou é muito feliz de não mijar mais na cama - mas tenho, sim, orgulho imenso de ter passado por isso. Sobrevivido aos insultos da minha irmã, às piadinhas de família e ter contado com uma boa amiga pra lidar com meu probleminha quando precisei.
São as pequenas coisas que fazem a diferença. É aquilo que faz a diferença que nos faz quem somos.

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