quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Um bom ator

Partindo da ideia de que um bom ator se identifica com a personagem que interpreta e que é essa clara visão e compreensão do ponto de vista da personagem que faz o ator e sua excelência na atuação, minhas ideias começaram a se expandir. Sim, de fato se você consegue se colocar no lugar do outro ou até comparar a vivência dele com alguma das suas experiências passadas, fica bem mais fácil ser fiel no transmitir dessa ideia, da ideia plena da personagem. MAS! O bom ator não é aquele que se identifica o máximo possível com sua personagem, essa identificação é o que alavanca a boa ATUAÇÃO. O bom ator mesmo, é o que é capaz de criar essa identificação, independentemente de ter experiências que o compararem à personagem. Está claro?

Exemplificando:
Érico Veríssimo, escritor, em sua obra Clarissa, por exemplo, narra como uma mulher jovem de ideias abundantes e você nem percebe que o texto foi escrito por um homem; ele é capaz de se colocar no lugar de uma figura alheia a si mesmo. E todos os seus personagens (as senhoras, os rapazes, os senhores) têm uma personalidade original, falas fieis a essa personalidade! Um bom escritor.

Chico Buarque, compositor, tem muitas letras de músicas que escreveu para que mulheres as interpretassem, com eu-líricos femininos de personalidades femininas. Chico é gay? Não (se for, não é isso que faz dele gay)! É simplesmente tão sensível quanto o bom escritor, quanto o bom ator: capaz de se colocar no lugar de uma figura alheia a si mesmo. Um bom compositor.

E nós podemos também ter essa qualidade, como quando ouvimos uma música - vamos supor - de um amor acabado por uma traição (clichê!) e, mesmo sem jamais termos sido traídos - ou termos descoberto a traição, porque.. né! - compreendemos, admiramos e apreciamos a música, até mesmo nos comovendo com sua letra. Afinal, "imagina só o sofrimento" traduz sua capacidade de se colocar no lugar de uma figura alheia a si  mesmo.

Aliás! Não só podemos ter essa qualidade, como devemos! Porque determinadas situações exigem de nós uma projeção de nossa imagem na experiência do outro, que nem sempre terá algo em comum com alguma vivência sua. Por isso é uma delícia (eu acho, você não?) ter contato com pessoas de background diferente do seu: para exercitar essa habilidade maravilhosa de se colocar e se identificar em situações de pessoas alheias a si mesmo.

Enfim, não é preciso ser um cachorro para defender os direitos dos animais: devemos saber nos colocar no lugar deles e, assim, constatar o que seria uma atitude negativa ou positiva perante eles. Não é preciso ser negro para combater o racismo, não é preciso ser gay para combater a homofobia, não é preciso ser mulher para combater o machismo. Só o que precisamos é um pouco de empatia: a tal capacidade de se identificar com o outro, colocando-se no lugar dele.

*ironia* ~Exemplo de ator ruim~ *ironia*


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