Em 2000, apareceu a história de que havia uma mulher que criava labradores querendo se livrar de um deles. O cachorro de um ano de idade, um labrador chocolate, tinha as patinhas da frente abertas em um ângulo inadequado, ela não queria um macho reprodutor defeituoso, ela não queria gerar cães com defeito. Toddy precisava de um lar, e foi assim que ele veio parar em casa. Adotamos o pobre rejeitado, no começo ele não gostava de dormir pra fora, chorava. Dormia com meus pais no quarto deles, depois fomos tirando esse hábito dele.
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| Meninão enérgico! |
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| Sempre um doce (: |
Este ano, com 13 anos nas costas, Toddy não pôde suportar o peso: teve problema de coluna, parou de movimentar as patas traseiras, parou de andar, começou a sentir dor. Afinal, seria como um humano de 104 anos (o Niemeyer do Reino Animal!) Levamos o Meninão ao veterinário, levamos até para outro veterinário em uma cidade vizinha! Toddy fez duas sessões de acupuntura, começou um tratamento via oral com um monte de remédios... Melhorou um pouco, mas hoje teve uma recaída.
Ontem à noite o Meninão já não quis comer, hoje já não fez xixi, no meio da tarde começou a ofegar. Começou e não parou mais.
Agora à noite, quando o veterinário chegou aqui em casa, o diagnóstico: Toddy está infartado. Bom, andar já sabíamos que ele voltaria apenas com remotíssimas chances, e agora o veterinário dizia que, se voltasse desse infarto, grandes eram as chances de infartar novamente em seguida. Assim percebemos como é delicada a questão da eutanásia. *suspiro*
Decidimos pelo fim do sofrimento porque gostamos demais do Meninão, mas é um peso acabar com a dor. Com Toddy ali deitado, anestesiado, vi a tristeza nos olhos do meu pai. Vi a luta na expressão da minha mãe, como se tentasse se convencer de que aquilo era o certo. Vi lágrimas, não vi mais nada.
Até aquela hora eu não tinha chorado de verdade, só carregado os olhos de lágrimas, mas então o veterinário aplicou a injeção que colocaria um ponto final. Como um escritor que pinga o i da última palavra de seu romance, como um deus colocando e tirando peças de um tabuleiro chamado Terra. Toddy parou de respirar. Primeiro, fiquei feliz de ter acabado o seu sofrimento, depois me lembrei com saudades de quando ele era saudável e ativo, um filme rápido das minhas vivências com ele passou pela minha visão interna. Pensei "Ele morreu às..." e olhei pro relógio "nove em ponto.", levantei os olhos para olhar pros meus pais, com um triste sorrisinho conformado. Nossa. Foi quando vi a dor da perda nos olhos deles, quando senti a tristeza deles pela despedida de "um membro da família" que entendi todos os choros de todos os funerais.
Funerais são para os vivos, sabe? Pra facilitar que as pessoas se encontrem, se consolem umas às outras, sintam-se leais por lembrar características do falecido, feitos, vivências... A dor da morte não é pelo morto, é por nós mesmos; um egoísmo vaidoso, mas inevitável. A única tristeza de ter perdido o Meninão, para mim, foi perceber como ela afetou meus pais. Eu, particularmente, acredito que fizemos o possível, viajamos com ele, fizemos tratamento, tudo para aumentar sua qualidade de vida. Como nossas iniciativas foram insuficientes, o único jeito de colocar alguma qualidade àquilo que chamávamos de vida do Toddy seria tirando-lhe a vida. Eu, no lugar do Toddy, escolheria morrer, isso me deixa sem culpas.
Mas hoje, às nove em ponto, entendi que a morte só machuca aqueles que não vão com ela. Descanse em paz, Meninão! E nada fazer xixi na prancheta do Niemeyer, viu?
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