Que eu detesto sopa o leitor já sabe, mas lentilha é outra história. Tenho nojo de feijão, além do gosto não ser do meu agrado, ainda acho que a sua textura é meio perturbadora: uma massinha branca que sai de dentro de uma pelinha marrom jamais descreveria uma experiência satisfatória. Já a lentilha não! Ela tem sabor próprio, não precisa ser complementada com o arroz ou carne, e são esferas fofamente achatadinhas e carinhosamente verdes... Lindas! Eu gosto de lentilha hoje, mas não foi sempre assim.
Me lembro de um frio mês de junho há uns bons (11?) anos atrás, eu era uma criancinha pititiquinha empolgadíssima para ir à quermesse da igreja aqui da vila. Porém, minha mãe precisava atuar em sua melhor figura antagônica, profetizando: "Você não sai de casa sem jantar." E a janta? Lentilha! Blargh!
Ainda me lembro claramente de estar sentada na nossa mesa redonda da copa, da toalha xadrez azul que eu adoro, do meu pratinho de alumínio (ter um prato diferente me fazia acreditar que eu era especial e me distraía, me convencendo mais facilmente a comer), da colher de princesa afundada naquele caldo verde com as amigáveis bolinhas achadas me espiando, ao lado, uma fatia de pão de forma tentava me convencer de que aquilo não era tão ruim assim. "Mas eu queria jantar pastel!" eu pensava, não me atrevendo a falar em voz alta. Eu chorava, e minha mãe ali do lado tentava negociar sem um pingo de democracia. "Coma!". E conforme o caldo esfriava, as negociações se abrandavam "Calíope, só três colheradas, vai! Come!!". Mas como eu não me conformava com o sutil, era preciso pegar pesado, e de repente a cinta de couro marrom da Zoomp (o raio desenhado no feixe me convencia de que era uma cinta que dava choque além das pancadas) estava ali, ameaçadora, há uns dois palmos da fatia de pão mordida. Olhando. Ameaçando. Sibilando. "Nada de pastel pra você hoje, chorona...".
Confesso que o trauma não foi tão grande, não me lembro se tomei uma surra naquele dia, nem se comi pastel. Só sei que passei a gostar de lentilha apenas uns anos depois, de um jeito no mínimo estranho.
Era fim de ano, todos tinham suas seríssimas resoluções de fim de ano a cumprir, estávamos todos ansiosos para banhar de champanhe um novo recomeço, eu não via a hora de ver os fogos de artifício, de atravessar a rua e - como sempre - começar o ano dando aquele abraço de "Feliz ano novo" na minha melhor amiga. E naquele clima de "virada", um blecaute resolve banhar nossa refeição. Pensei, a princípio, que fosse o susto do Universo diante da minha decisão de comer arroz e feijão (detesto!), mas desencanei logo. Montei meu prato à meia-luz quando já tinham trazido algumas velas, e comecei a comer. "Arroz e feijão não é tão ruim assim... O feijão está menos detestável do que me lembro de experiências anteriores. Legal!" e quando as luzes se acenderam do nada, olhei pro meu prato e descobri que comia lentilha com arroz! "Lentilha é bom!!". E desde então eu gosto de lentilha, mas sempre vou detestar sopa e ter um ligeiro asco do tal feijão... Fim.
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