sexta-feira, 14 de setembro de 2012

GUEST POST: Beatriz Paiva

Pra quem é bloggeiro iniciante, Guest post  é uma postagem que não é escrita pelo autor do blog, mas por um convidado. É meu primeiro Guest post, e eu convidei uma pessoa muitíssimo especial pra dividir com os leitores do  Rascunho sua postagem do Tumblr: a carioca Beatriz Paiva. A Bia aceitou, então fiquem agora com as maravilhosas palavras dela, vale a pena!


Aniversários, doenças e bonés

Dia 23 de dezembro de 2008. Aniversário do meu pai. Lembro como se fosse ontem.

Estamos sentados eu, meu pai e minha mãe em um sofá de canto amarelo que faz parte da decoração de um lugar chamado “Aquário Carioca”. Este lugar é onde as crianças fazem tratamento de quimioterapia e é chamado assim porque foi projetado pra realmente parecer um aquário. Como o lugar onde ficariam criancinhas com câncer seria um lugar muito triste, esta foi uma maneira que o Governo encontrou de fazê-lo mais alegre. O sofá, assim como o terço da parte de baixo da parede, é amarelo porque representa a areia. O terço do meio é azul mais escuro, representando as águas mais profundas. E o terço de cima até o teto, é azul mais claro, representando a água aparente que se junta com o céu.

No teto, gaivotas de madeira que, se você puxa a cordinha, batem as asas como se realmente estivessem voando (é claro, se você tem imaginação o suficiente pra isso. Mas em um lugar onde só tem crianças, imaginação não é uma coisa difícil de se encontrar). A mesa da recepcionista é nada mais, nada menos, que um caranguejo gigante. Lá dentro, onde realmente realizam-se as sessões de quimioterapia, uma televisão enorme, pregada em um gigante quadro de algas marinhas. Peixes enfeitam o topo daquele ferro aonde penduram as bolsas de soro e de remédio e, sentadas em grandes poltronas azuis, as crianças.

Estamos sentados eu, meu pai e minha mãe neste sofá, esperando ansiosamente que nos chamem, que nos digam logo o que está acontecendo, que nos expliquem o que estamos fazendo naquele lugar! Uma moça senta do meu lado e me diz: “- Olha, não se preocupe. Se Deus permitir que você tenha câncer, eu vou enfeitar seu quarto do hospital junto com você! E você tem um rosto tão lindo, olha esses olhos! Nem precisa de cabelo pra ficar bonita!”. O QUE?! O que essa louca estava dizendo?! “Se Deus permitir que eu tenha câncer”?! E Deus quer isso pra alguém?!

Olho desesperada para os meus pais, que, como eu, não sabem o que dizer. Estamos mortos de cansaço. Mortos de medo! Ninguém mais sabia o que fazer. Será que rezar mais adiantaria? Será que pensar positivo realmente adianta alguma coisa? E aquela maldita dor na perna! “- AAAAAH!!! Tá doendo, mãe! Tá doendo muito!”. “- Você não tomou o remédio hoje?”. “- Não faz mais efeito, mãe! Tá doendo demais!”

Eu sempre fui a “amiga cheinha”, a “gordinha da sala”, a “esbelta”, “fofinha” e qualquer outro desses adjetivos eufêmicos que você queira usar. Mas no começo do ano de 2008, isto começou a mudar. E eu ficaria feliz, eu estava feliz, se essa mudança não tivesse ocorrido pelos motivos que a tornaram realidade. Perdi 20kg naquele ano. De uma hora pra outra. Me pesava em uma semana e tinha perdido 5kg, me pesava na outra, mais 10kg. Não fazia nada pra isso acontecer. É um milagre!

No meio do ano, como estava na oitava série e tentaria prova para um colégio federal, eu estava fazendo coisas demais: aula particular de português, aula particular de matemática, aula de violão, escola, curso de inglês. Era de se esperar que eu estivesse emagrecendo mesmo, já que quase não comia direito. Mas e todo aquele sono? E como estava emagrecendo tão rápido?

Depois que minha mãe me levou à pediatra é que os problemas realmente começaram a aparecer. “- Ela tem anemia falciforme. É um tipo de anemia que acontece pela falta de ferro no sangue. Por isso o sono e por isso está emagrecendo desse jeito.”, “- Mas, doutora, eu também tenho sentido um carocinho bem aqui atrás do pescoço. Isso não é nada?”. De acordo com ela, não, não era nada.

A anemia era mais forte do que eu pensava e logo minha mãe começou a me obrigar a comer e beber coisas. Não gostava de suco. Odiava feijão (pra falar a verdade, ainda odeio. Acho que até mais agora, já que por causa do trauma não posso nem sentir o cheiro que começo a ter ânsias)! Bebi desde suco de laranja com beterraba até copos de caldo de feijão!

Mais tarde naquele ano, comecei a sentir dores muito fortes nas costas, que depois passaram pra perna e ficaram terríveis! Fui ao ortopedista e descobri que tinha escoliose. É alguma coisa que faz minha coluna ser meio torta, sabe? Quase como um “S”. À princípio, as dores que eu sentia seriam em decorrência disto, mas elas só foram aumentando. Aumentaram tanto que eu tive que fazer acupuntura (não a de furar com agulhas, credo! Aquela com sementes na orelha.), que não adiantou nada, então comecei a tomar anti-inflamatórios, que passado um tempo, não surtiam mais efeito algum.

Eu já não dormia mais. Não conseguia andar direito. Chegava a noite e as dores ficavam insuportáveis. Tomava os anti-inflamatórios só pra dizer que estava tentando fazer alguma coisa. E como se não bastassem a anemia e as dores na perna, percebi que podia sentir mais um caroço – este bem maior que o outro – um pouco abaixo do pescoço. Um dia, ouvi a mãe da minha amiga dizer que uma mulher que ela conhecia disse que sentia um pequeno caroço em algum lugar do corpo que não me lembro agora, e que tinha ido ao médico, o qual falou que ela podia morrer. Só acreditamos mesmo nas coisas quando elas acontecem com a gente.

Depois de tudo isso, mais pro final daquele ano, comecei a sentir uma coceira insuportável nas pernas. Sério, me arranquei pedaços de tanto coçar! Voltei ao ortopedista, que me pediu exames de raio-X da coluna, para que ele pudesse saber o porquê de tantas dores e tentar dar um jeito naquela escoliose. Mas, espera aí! O raio-X não deveria mostrar só os nossos ossos?! “- Sabe aqueles carocinhos que você sente perto do seu pescoço? Eles estão em todo o seu corpo. Não sei o que é isso, mas vamos esquecer o problema na sua coluna por enquanto e nos concentrar neles. Vou te fazer um encaminhamento pro EMORIO.”.

Eles disseram que não tinham como me ajudar. Disseram que não podiam realizar os exames necessários para detectar o que estava acontecendo comigo. Como já estávamos no centro da cidade, resolvemos então ir ao Hospital dos Servidores, que não ficava muito longe dali. Entramos na fila, pegamos uma ficha e ficamos esperando até que fomos atendidos pela mulher que salvaria a minha vida. Nunca vamos cansar de agradecer à Dra. Cristina.

Depois de contar tudo o que estava acontecendo, a doutora saiu da sala e nos pediu que esperássemos. Quando ela voltou, nos levou à outra sala, onde trabalhava a Dra. Gabriela (ou, para mim, meu segundo anjo da guarda) e nos fez contar de novo o porquê de estarmos ali. “Eu não sei o que é, não tenho certeza, mas acho que você já é bem grandinha e que não precisamos esconder nada de você. Pelo que você me contou, pode ser câncer.”. Comecei a chorar, né? O que mais podia fazer? Câncer? Não, não podia ser câncer. É coisa de novela! Não acontece no mundo real. Não podia acreditar. Não queria olhar pro lado e ver minha mãe chorar. Não queria olhar pro lado e ver meu pai com os olhos vermelhos, marejados com lágrimas que ele, por força de vontade, não derramava. Então ela me abraçou. Foi a melhor coisa que alguém podia ter feito naquela hora. Olhou nos meus olhos e disse: “- Não tenho medo de doença feia. E você também não deveria ter! Não importa o que seja, vamos descobrir e vamos cuidar disso juntas, tudo bem?”.

Nunca fui furada tantas vezes na vida! Pra quem fazia escândalos na hora de tomar uma vacina, digamos que aquela não foi uma semana muito agradável. Fiz todos os exames possíveis: tuberculose, dengue, diabetes, AIDS! Sem contar as tomografias, ultrassonografias e exames de raio-X. Tudo o que faltava agora era a biopsia.

Estamos sentados eu, meu pai e minha mãe no sofá amarelo, a dor parcialmente acabada depois que meu pai foi comprar o anti-inflamatório, esperando que nos chamem. Estamos esperando ser chamados pelo Dr. Flávio, chefe dos oncologistas do hospital e o responsável – descobriríamos logo, logo – por dar as notícias ruins. Então, finalmente, ele nos chama. Lembro como se fosse ontem. Entramos na sala dele e tudo o que consigo reparar é no incrível microscópio que ele tem em cima da mesa. Sempre fui apaixonada por eles. Nos sentamos e esperamos pela notícia que mudou toda a minha vida.

“- Você tem Linfoma de Hodgkin. É um tipo de câncer que dá no sistema linfático. O seu está no quarto grau, que é o último, e você tem 70% de chance de viver.”

Já chorou tanto que pensou que, a qualquer momento, seu coração fosse sair pela boca? Já ficou tão inconsolável e desesperado, que tudo o que queria fazer era gritar? Já fez isso, depois de receber a notícia de que você tem câncer, sendo uma menina de 14 anos?

“- Meu cabelo vai cair! Meu cabelo vai cair! Eu vou ficar horrível!”

“- Tá maluca, menina?! Você pode morrer e está preocupada com o seu cabelo?! Cabelo cresce!”

Depois de chorar mais um pouco por causa do meu cabelo, mais ainda porque estava doente e de pedir desculpas ao meu pai por ter estragado seu aniversário, o Dr. Flávio me pediu que fosse conversar com uma menina que tinha o mesmo câncer que eu e que já estava fazendo quimioterapia. O que eles ficaram falando lá dentro eu não sei até hoje.

Você deve estar pensando que esta é uma história triste. Errou muito, muito feio. Na verdade, é a história mais feliz que tenho. O que poderia ser melhor que passar por tudo isso e estar viva para contar?

Não me lembro de muita coisa depois disso. Dizem que a nossa mente apaga algumas experiências que tivemos, por serem traumáticas demais. Acho que pode ser verdade. Ou vai ver, eu sou só esquecida mesmo. Mas lembro perfeitamente de chorar todas as vezes que ia pentear meu cabelo e ele caía aos montes, e de ficar com raiva por ter que jogar fora o que caía; lembro de quando fomos comprar uma peruca (que nunca usei porque fiquei com medo) e a vendedora, que também era cabeleireira, cortou o meu cabelo; lembro de chorar muito e de me sentir em “Laços de Família” enquanto ouvia a tesoura cortar bem perto da cabeça, e de olhar pro lado e ver que minha mãe chorava muito também. Ainda tenho guardado o meu cabelo. Lembro de passar o dia vomitando depois de uma sessão de quimioterapia e de quando me ligavam nesses dias: dava tempo de dizer “Alô” e pedi pra esperar pra que eu pudesse vomitar de novo; lembro da primeira e única vez em que vi “Doutores Alegria” e de ver o sorriso radiante no rosto de cada criancinha quando eles passavam tocando um violão; lembro de usar o mesmo boné branco com listras pretas todos os dias pra ir à escola e lembro de ter vergonha de usar a máscara na época do primeiro surto da gripe suína, e de, por isso, quase todos da sala de aula terem usado comigo.

Sempre soube que existia um motivo pelo qual eu passei por tudo aquilo, por isso não perguntava o porquê, mas sim pra que. Descobri este motivo não faz muito tempo e, infelizmente, não posso contar agora, mas posso dizer que além dele, ter câncer me fez aprender muitas coisas. É muito engraçado olhar para a pessoa que eu era há alguns anos atrás e comparar com a que eu sou hoje. De verdade? Gosto muito mais de quem eu sou agora. Sempre ouvi dizer que, depois que você passa por coisas como esta, você começa a enxergar a vida de outra forma. Não mentiram.

Sempre que me perguntam sobre isto eu digo que foi bom. “Bom por que?!”. Porque além de não me importar mais tanto com o meu cabelo, aprendi a não ser egoísta, a não reclamar de qualquer coisa, a ser mais otimista, a lutar pelo que eu quero, a não querer agradar ninguém senão a mim mesma, a não ligar muito para o que os outros pensam, a não ter medo de ser diferente, a ser feliz. Desculpem, não quero dizer que virei Buda, é só que não achei outro jeito para escrever esta parte.

Outro dia, conversando com um amigo comediante que conheci esse ano (2012 agora, não se percam ; )), eu disse exatamente o que está escrito nesse parágrafo anterior e ele me disse: “Eu preferiria ter aprendido essas coisas com o Barney, não com um câncer!” (hahahahahahahaha). Sim, Daniel, também iria preferir ter aprendido com o Barney, Teletubbies, Malhação! Mas algumas pessoas são mais difíceis de aprender que outras e então eu descobri que, não, Deus não quer o mal de ninguém, Ele quer que sejamos melhores. E se não aprendemos do jeito fácil…

Quando olho para trás e penso nesta história, fico feliz de ter passado por tudo o que passei. Hoje tenho 17 anos (18 em alguns meses *-*), estou há 3 anos em acompanhamento pós-tratamento, fiz 8 ciclos de quimioterapia sem precisar fazer radioterapia, já fiz mechas azuis no cabelo, parei de usar só jeans e camiseta e de combiná-las com meus tênis, faço faculdade e moro sozinha. Sabe qual é a única coisa ruim de tudo isso? Sinto muita falta de usar boné.

Pode secar as lágrimas e colar o sorriso no rosto. Essa menina que conheci na faculdade é, sem dúvidas, uma pessoa especial. Para quem tem Tumblr e gostou, pode seguir a Bia (clique neste link!) e dividir com os outros seguidores o privilégio de poder ouvir falar uma voz de boas intenções. E ainda vai conferir a postagem original dela, que acaba com uma montagem sua de "antes e depois". Beatrixxx, muito obrigada por deixar um pedacinho seu qui no Rascunho!

Um comentário:

  1. Eu que agradeço, Calíope! Sério, fico muito feliz que você tenha gostado e que tenha querido postar meu texto no seu blog : ) Você é uma das pessoas mais especiais que já conheci na vida e espero que, mesmo estando longe agora, eu nunca fique sem suas piadas! Beijos

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