Nessa fase da minha vida, todos os meus amigos estão cada um pro seu lado, fazendo faculdade ou cursinho fora de sua cidade natal. Nos encontramos esporadicamente em nossa pequena cidadezinha de origem em finais de semana ou feriados prolongados e, agora, nas férias. Em uma das últimas vezes, meu amigo, Júlio, veio contar "a última":
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| Claramente se vê que essa é uma foto dela feliz :P |
- Não acho decadente comprar roupa de brechó. Talvez aqui na nossa cidade, que é muito pequena, sim; mas ela tá numa cidade grande agora, os brechós de lá devem ter muita coisa muito boa por um preço ainda muito melhor!
- Argh! Eu achei que sua reação fosse ser mais parecida com a minha, mais divertida. Broxei HAHAHA - e rimos juntos e mudamos de assunto.
Agora, ao brechó da minha avó. Piraju é uma cidade pequena, de fato, as coisas que se acha nos brechós daqui - assim como no da minha avó - dificilmente valem a pena, mas com sorte [e muita paciência para revirar pilhas e pilhas de roupas] você pode encontrar algo muito bom.
Hoje de manhã eu fui lá com o meu pai [é a mãe dele], ele ia entregar um biombo pra ela. Enquanto ele vasculhava os montes de roupa à procura de umas pólo que valessem a barganha, eu me distraía com uns brinquedinhos numa prateleira: homenzinhos de exército e nativos americanos...Um rapaz [que tem uns 30 anos] chegou. Depois de observar como ele estava gordo e ter alertado para sua saúde, minha avó bradou:
- Olha só, Miguel! O Amaury pega roupa daqui.. Tem cada camisa boa! Você é que é entojado, metido!! Acha que tem que ficar comprando camisa de marca pra mostrar que é alguém... Tem até um engenheiro que pega camisa minha aqui direto. Engenheiro agrônomo! - engraçado como ela arregalou os olhos e agravou a voz pra enfatizar a importância do cara - É cliente meu! Compra roupa aqui DI-RE-TO! Saiu daqui semana passada com uma sa-co-la de camisa...
Voltei pra casa com aquilo na cabeça. "Acha que tem que ficar comprando camisa de marca pra mostrar que é alguém...". É difícil eu concordar com minha avó, mas às vezes ela diz umas sábias verdades camufladas de ignorância. E por trás de sua sábia ignorância, há uma verdade da nossa sociedade: pessoas "pequenas", normais acham que vão se mostrar alguém através de bens materiais, comprarão roupas, relógios, carros e casas para se exibir, para demonstrar seu poder [HA! HA!]; enquanto pessoas já "grandes", que já recebem um reconhecimento pela sociedade [independente do seu valor ser congruente a esse reconhecimento], como o engenheiro agrônomo não precisam disso. Eles compram no brechó, provam à sociedade que não estão no brejo através de seu título honroso.
É... F#da-se! Eu nunca me importarei de comprar em brechó, encher-se de marcas é coisa de gente vazia!

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