- Essa folha aí em cima é sua ou é impressão minha?
Pode rir, apiada é boa! Mas não é desse tipo de impressão que eu quero falar hoje. Eventos sociais, como as pessoas adoram! É a chance de sorrir para uma grande plateia, de deixar escorrer seus litros de felicidade, de emoldurar e banhar a ouro todos os seus méritos. É o momento, a hora exata de mostrar e exibir tudo aquilo o que não existe de fato.
Decadente. Triste. É assim que somos na maior parte do tempo, decadentes e tristes, isso é o que torna cruel a existência de eventos sociais. É verdade que precisamos de momentos em que todos estejam felizes, pois assim podemos ser felizes também sem estabelecer tensão no ar; mas tem mesmo que ser uma felicidade falsa? Manipulada? Tem. Se não fossem os momentos sociais, obrigatoriamente felizes, nós nos trancaríamos num poço de lamúrias e só abriríamos a boca pra deixar escapar mais lamentações e reclamações!
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| Muro das lamentações |
De volta às impressões... O que mais mexe com minha cabeça nos eventos sociais, são as pessoas que eu só conheço de eventos sociais. Eu nunca convivi com aquela mulher, por exemplo, e sempre a encontrava sorrindo, feliz, alegre e simpática nos almoços e jantares de família. Eis que num almoço vida afora eu me encontro com ela, o mesmo sorrisão largo de sempre "Nossa - pensei - a Renata é mesmo muito gente boa, tá sempre tão pra cima..!" e passamos uma pela outra, trocamos cumprimentos e breve diálogo. Assim como passamos, o tempo também passou e lá estava eu sentada na ponta da mesa, olhando pro nada e pensando em um milhão de coisas; parte da conversa de Renata e Fernando, então, começou a invadir meus pensamentos:
- Ai, é mesmo... - ele diza
- Agora pensa, o Josué me liga agora, falando de almoço com a família, com todo mundo.. Eu dormindo, pensa na cara da pessoa.. Falei mesmo! Aaah, vai ter que me esperar. Aí que eu levantei, me arrumei e tô aqui, porque né..!
- Tem razão, tem razão...
E meus pensamentos já criaram novo rumo. É. Não sou eu que rio risos-fantasia todos os dias... Sim, risos-fantasia, é como eu os chamo; pois não são falsidade, não é que sua companhia não me agrade ou que sua piada não tenha sido engraçada. Não! É só que eu tenho por dentro uma tristeza maior e não queria estar ali, não queria estar sorrindo, queria... Sei lá o que queria! Queria talvez estar sendo compreendida, ou talvez estar ensimesmada com minhas ideias, tentando solucionar minha tristeza. O riso, então, nesses casos é um riso-fantasia, é uma fantasia de felicidade que a gente veste pra socializar; o que não nos faz pessoas piores, falsas, hipócritas.. Só nos faz isso o que somos: humanos. Porque no fundo, somos todos impressões: impressões que as pessoas tem sobre a gente, nosso verdadeiro eu morre solitário, morre conosco e dentro de nós mesmos [tenho uma elaborada teoria sobre isso].

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