Desde que me entendem por gente eu torço o focinho se a janta é sopa. Odeio sopa. Muitas vezes entrei em casa e senti o cheiro do caldo sendo cozido:
"Tá fazendo sopa, mãe?!" - em um tom de decepção.
"Aham! Uma delícia num friozinho como esse!" - em tom de deleite.
"Aff. Justo hoje que eu tava com fome.." - rabugenta.
"Ah! Você vive com fome, menina!" - perdendo a paciência."Mas sopa não mata a fome.. Sopa não é comida!" - revoltada.
"Ara! Vai tomar na peida, Calíope!!"
E, com sucintas variações, este era o diálogo de todos os dias que o menu incluía sopa. Depois, à mesa, era eu revirando o caldo no prato. Minha mãe:
"Calíope.. Para de fazer nojo pra sopa! Come direito, tá uma delícia, pôxa.."
"Mãe, 'delícia' e 'sopa', para caberem na mesma frase EXIGEM o uso do conectivo 'não', tipo em 'Sopa não é uma delícia'..." - e meu pai, irritado:
"Ah, Calíopêê! Para de ficar torcendo o focinho aí pra comida! Come e fica quieta..."
"Mas, paiê! Sopa não mata a fome..!"
"Eu sei, minha filha, mas é só você comer bastante que engana.."
"Amaury!!" - minha mãe, repreendendo
"Mas é verdade, Tânia! Falar que sopa enche barriga? Se comer um baaaaalde de sopa talvez até encha, mas.."
"Ah, vá..! A sopa tá uma delícia e vocês dois aí reclamando.. Deviam agradecer que eu fiz alguma coisa pra vocês comerem!"
"Eu agradeço, mãe!" - digo sem ironia. "Mas ainda preferia um x-tudo..." - resmungo entre colheradas infelizes. Meu pai ri, minha mãe desiste de nós. E depois que minha mãe realça como são deliciosas a sopa de feijão e a sopa de osso, que eu realço o asco que AMBAS me despertam, depois que meu pai enche seu prato pela terceira vez, o assunto finalmente muda.
Já descobri Cali, você sofre de síndrome de Mafalda...
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