Acabei de chegar em casa mas ainda não consegui soltar aquele suspiro tranquilo de "lar doce lar" que todos soltamos após uma amostra grátis de inferno que é a nossa sina diária.. Meus músculos de stress - se é que existe tal coisa - ainda estão todos rijos, tensos e é porque não paro de pensar nela. Especialmente no namorado que ela tem. Vou contar-lhes a história toda:
Eu estava no último acento, lá no fundo do busão, e ela entrou com toda a sua falta de shorts, com sua abundância de pernas, com seu escorpião tatuado nas costas, com seu perfume doce que cutucou o nariz de todos, sentou-se ao meu lado. Eu ainda não sabia, mas não era ela que iria me chamar mais a atenção; seria a sua amiga que entrara logo em seguida.
A mulata de olhos rasgados, pretos como se fossem pupila apenas, logo começou sua narrativa. Não sou surda, acabei ouvindo mas a certa altura desejei a surdez, depois de um certo tempo, desejei a morte! Não dá pra contar em detalhes o que ela contava, mas sua história envolvia agressão contra a mulher onde a mulher era ela e nenhuma punição contra o agressor, sendo que o agressor era seu namorado. "A gente tava dormino lá no caminhão [o namorado dela é caminhoneiro] e ele bateu o no meu rosto assim, sem querer, daí começou a sair lágrima do meu olho e ele falou, tá doendo? e eu, tá sim, daí ele começou a tirar sarro. Daí eu falei que ia contar pro meu pai, é que a gente tava em frente a casa da minha mãe, e disse que ia falar pro meu pai que ele tava me batendo de propósito, que tava me machucando... Pensa no desespero do homi! Ficou disisperado! É que ele tem medo do meu pai, sabe? Que sempre que ele bate em mim de verdade eu falo pro meu pai e meu pai briga com ele, bate nele, meu pai me defende..." neste momento eu já fiquei chocada. Ela já tinha contado outras cenas de agressão, onde o namorado a agredia de propósito e até a ameaçava de morte. "Em cima da geladeira lá de casa tem um papelzinho com nome, endereço, CPF, tudo dele, sabe? Tem lá em casa, na casa da minha mãe e deixei um com minha amiga, porque aquela vez que ele me bateu que ele disse que ia me matar, eu fiquei com medo dele [sério que ela precisou ser ameaçada de morte pra ter medo do cara?!] e deixei esses papelzinho com todo mundo e falei ó, se eu aparecer morta de um dia pro outro cês já sabem quem matou!" e riu. Como ela consegue rir?
Ela contou também da vez que ele estava ao computador, e ela atrás, olhando os recados [deduzo que seja do Orkut] junto com ele. "Daí tinha um de uma menina lá falando meu amor, que saudade! e não sei o quê.. Só que ela colocou assim também, ah delícia, tesão! Aí eu dei um tapão na cabeça dele, e fui dano tapa na cabeça dele e ele falava pára... Não, Marina, pára! E eu bateno nele. Daí ele virou assim, me pegou e deu um mate-leão ni mim, nossa foi nocaute. Daí ele me segurava assim e falava tá doendo? E eu tá... [ela ria contando] Pára, pára, tá doendo!..."
A cada história, a cada frase, a cada riso eu ficava mais e mais chocada. Quis ser surda, e então pensei em como somos fracos e gostamos de nos iludir: ao invés de procurar uma solução pro problema em si, procuramos uma solução para os efeitos negativos que o problema causa na gente. Então tomei coragem e ia dizer pra mulher que ela deveria denunciar seu namorado na Delegacia da Mulher, que funciona 24 horas ou ligar pro 190 logo depois da agressão e denunciar mesmo! Mas então, no meio da conversa com a amiga, a mulata diz "aí eu falei pra ele parar, falei que ia contar pro meu pai, ele morre de medo do meu pai, falei vou lá na Delegacia da Mulher!" e riu. Sim, ela sabe da existência dos seus direitos e NÃO reivindica. Sério, estragou meu dia.
Tenho mais o que falar desse encontro que tive com essa mulata arretada de sotaque baiano que teve seu caminho cruzado com o meu hoje. Mas vou escrever depois porque agora vou sair em busca de mais expeiências que alimentem meu texto [na verdade vou sair com as amigas, mas aproveito pra "trabalhar" também enquanto isso]
Viajei 10 anos de ônibus entre Mairinque e Sorocaba. Todo santo dia eu me preparava para acordar bem cedo e rezar para ir sentado ou em pé com o mínimo de conforto. Nesse tempo vi e ouvi coisas que pra mim eram absurdas. Pra mim. As pessoas são moldadas pelo ambiente em que vivem. No contexto em que elas vivem isso é normal.
ResponderExcluirParabéns pelo post. É muito gosto ler seus textos. Bjos.