segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A árvore torta

Eu me lembro de quando construíram a varandinha na casa da minha avó. Não era e nem é uma super varanda, alta pra caralho; não... Uma varandinha só pra dar um charme. Mas eu sempre adorei ficar ali, trepada no parapeito (vai cair daí, menina! Calíope! Olha só essa menina, parece até um macaco! Desce já daí!!) olhando o movimento da rua e apreciando minha vista favorita: o horizonte.
Tinha ali - num mundo tão próximo, tão distante - uma coisa que me intrigava: a árvore torta. Eu olhava e olhava pra ela, eu chamava todo mundo pra ver, apontava sorrindo. Me lembro do silêncio gostoso que antecedia a descoberta da árvore pelos olhos adultos, e sempre se sabia quando eles finalmente encontravam a árvore, um riso de infância enchia os ouvidos imediatamente, sempre seguido de frases como "Olha, e eu nunca tinha reparado!". Eu adorava surpreender os meus familiares apresentando-nos a minha paixão, aquela árvore torta.
Se você não consegue entender o que é uma árvore torta, eis que eu lhes explico. Era uma árvore assim, ó:


E eu era apaixonada por ela! Toda vez que ia à varandinha, meus olhos procuravam logo trazê-la à vista, e tinha ainda as vezes em que eu ia à varandinha APENAS para me encontrar com ela... Parece bobagem, coisa de louco (tudo bem, eu nuca disse que não era louca), mas eu me imaginava flutuando. Eu flutuava e avançava reto em direção à minha árvore, a Árvore Torta... Passava por cima das casas, deixando os telhados pra trás; passava por cima dos campos, agitando a grama... Pousava ao lado da minha árvore, a contemplava de perto, tocava seu tronco e perguntava "Por que você é assim, Árvore Torta?".
Nunca me responderam... Já pensei na possibilidade de todas as outras árvores estarem erradas e da minha ser a única árvore perfeita. Já pensei que talvez ela tivesse escolhido crescer assim, que tivesse uma mensagem importante pra passar pra gente e que ser torta fosse sua maneira de chamar a atenção. Enfim, sempre amei a Árvore Torta, sempre tive essa atração inexplicável pelo estranho e pelo inexplicável.. (risos)
E eu, criança sonhadora, pensava em um dia pedir pro meu pai me levar até onde ficava a Árvore Torta; cresci e comecei a pensar que, quando tirasse carta, iria eu mesma descobrir um jeito de dirigir até lá... Eis que aqui estou, tirando carta. Me lembrei da antiga paixão, corri pra varanda, trepei no parapeito... O QUÊ?!
Meus olhos já não encontram mais a Árvore Torta... E eu me senti como em O Pequeno Príncipe, como se já não soubesse mais enxergar jiboias devorando elefantes, tampouco carneiros dentro de caixas. Será que eu estou me tornando uma adulta chata? Um "homem tão razoável" que as pessoas grandes ficarão sempre "encantada de conhecer"? [O Pequeno Príncipe - Pág.9] Isso é terrível!!
E eu me refugio toda vez que algo me deixa triste, fico na varanda tentando trazer à vivência toda a memória boa do tempo em que eu era despreocupada, feliz, do tempo em que viver era indolor - exceto por uns ralados aqui e acolá... E olho firme e fixamente pro horizonte, mas o máximo que meus desencantados olhos de "gente grande" veem é uma árvore de cabelo despenteado, numa tosca imitação da minha Árvore Torta...

Cabelos ao vento.. ):

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