sábado, 31 de dezembro de 2011

Pra fazer um dia valer a pena

Hoje foi um dia daqueles em que eu estava completamente triste e deprimida. Dormi, então até umas três da tarde... Claro que não se "dorme" de fato até esse horário, eu por exemplo, intercalo cochilos com longas análises auditivas do movimento da casa. Enfim, hoje especialmente, forças maiores me diziam que eu devia levantar.
Repentinamente, no meio de uma de minhas análises auditivas dos movimentos da casa, detectei a presença de estranhos. MEUS PADRINHOS! *-* Sim, eles moram loonge e só eventualmente eu recebo a visita deles. E eles são fantásticos! Perguntaram logo de mim, ao que minha irmã disse que eu estava dormindo. Ainda.
Levantei num salto! Troquei de roupa em dois movimentos! Cheguei ao banheiro em três passos! Cumprimentei-os cheia de alegria, com o sorrisão rasgando a cara... Só que isso não foi suficiente, eu ainda estava triste e umas ideias me atormentavam a cabeça. Agitei a cabeça pra dispersá-las, me entreti olhando para a filhinha deles: "que saudade de ser criança...".
Ela não gostou de mim na primeira troca de olhar, o que é bem compreensível quando eu sou o assunto, e ficou entre nós ali na sala a conversar.. Meus planos pra 2012, pra faculdade, minha atual situação vestibulástica e blábláblá. E então a pequena começou a dar azia, querendo ir embora.
- Ei, Letícia! - arrisquei - Você sabe desenhar?
E todos se inclinaram em favor da minha tentativa, estimulando, repetindo-lhe a pergunta. Ganhei um aceno de cabeça e um olhar embaraçado.
- Ok. Vamos desenhar, então! Peraí.. - fui ao meu quarto, de onde voltei com meus giz de cera e duas folhas de papel sulfite. Nos sentamos ali no chão, perguntei o que ela sabia desenhar e... Wow! Ela pegou o giz rosa (aquele cor de pele) e fez uma rabisqueira danada no papel. Fiquei confusa, sou péssima com "expectativas a se obter de alguém em função da idade" e achei que ela já sabia desenhar o mínimo.
-Hm.. Ãhn. Legal! Olha só.. O quê você desenhou aí? - perguntei sem saber o que estava fazendo
-Um baico! [barco]
-Oh! Que beleza de barco... - fiquei com o c* na mão.. Não sabia o que fazer. Mas sou muito foda, tenho jogo de cintura. Percebi que o estágio cognitivo dela era outro, apontei para o giz em sua mãozinha - E me diga, que cor é essa?
- Rosa! - ela me olhou ainda com uma pontinha de embaraço, eu celebrei, feliz, o acerto
- É! Rosa... - peguei o verde na caixinha - E essa? Que cor é essa?
- Veidi.
- Isso. E o quê é verde? - desenhei uma folha - Olhe só. A folha é verde, não é? As plantas.. - apontei para o jardim da minha mãe - Veja só as plantas.. Não são verdes? - ela concordou com a cabecinha, ganhei um sorrisinho de admiração. Gostei. Peguei o vermelho, então - E que cor é essa, Letícia?
- Veimelho! - ela estava entusiasmada em ficar comigo, eu gosto quando consigo conquistar a atenção dos pequenos. Já estava me sentindo válida e em nenhum momento eu fui capaz de me lembrar o quão triste eu estava até cinco minutos atrás, "dormindo".
- E o que é vermelho? Uma fruta.. Vermelha, que a gente come assim - fiz o gesto, os sons de morder - se chama MA-...
-ÇÃ! - ela completou
- Isso! MAÇÃ. Vamos desenhar uma maçã.. Desenhei logo abaixo da folha, pra depois desenhar um galhinho entre elas e ter um desenho só. Terminei o desenho, levantei a folha pra ela - Olha! Uma maçã!
Aquela gargalhada não tem preço! É lindo ver a alegria de uma criança, ver o fascínio brotar nos olhos, ver as palminhas batendo em celebração... Continuamos desenhando, nisso aquela coisinha pequena já tinha me roubado uns bons sorrisos, exatamente o que eu estava precisando. Entre folhas amassadas, dobraduras e brincadeiras, fui surpreendida com um abracinho. Letícia simplesmente pulou no meu pescoço, se ajeitou no meu colo, me apertou firme. Respirei fundo, meus olhos queriam soltar lágrimas. Abracei-a de volta.
E ali eu ganhei o meu dia. Ganhei uma amizade e o meu dia, um pedacinho da felicidade, ganhei o reconhecimento do meu valor.
Isso é que é o mais legal com as crianças.. Elas nunca têm medo de te reconhecer, de te avaliar com o valor que você as mostra que tem. Se você for sensacional, elas te tratarão como alguém sensacional; se você for um nada, te tratarão como um nada. É simples, deveríamos aprender com elas.
Na hora de ir embora, minha madrinha disse pra Letícia dar um beijo na minha irmã - que não brincou com ela durante toda a visita.
-Nããão... - ela respondeu. E não deu o beijo.

Um comentário:

  1. Oi Caliope, adorei seu texto e acabei de ler para a Letícia. Perguntei para ela o que ela gostaria que eu lhe escrevesse e ela me disse Um beijo para a Caliope. Então muitos bjos para a minha afilhada mais "experiente". Rodrigo Porto

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