sábado, 24 de setembro de 2011

Diálogo platônico

Era como se ambos os meus cavalos fossem arredios, estava realmente difícil me equilibrar sobre aquela biga. Onde os romanos estavam com a cabeça quando inventaram aquilo? Enfim, o lugar era maravilhoso... Da minha biga eu observava as ideias, eu as admirava em sua perfeição e pureza daquele platônico mundo; mas antes que pudesse me perder na maravilha e me esquecer do meu real objetivo ali, meus olhos cruzaram com uma biga familiar: Platão.
C - EEeeeeei, Platão!
P - Mas quem atrapalha um filósofo na contemplação de tamanha perfeição?
C - Eu aqui, ó! [e me segurei na biga do filósofo, fazendo com que andássemos sempre pareio] Oi, eu sou a Calíope, prazer!
P - Calíope? Hm, sempre achei que você fosse mais velha... E, me desculpe, mas que propaganda enganosa a que os gregos fizeram sobre sua voz, não? Credo! Ei, você não devia estar lá no seu rio, a propósito?
C - Não.. Calíope e só meu nome.. A deusa eu não sei onde está...
P - Ah, você, então, é só uma mortal?
C - É, ora!
P - E quem te deu acesso a esse mundo? E quem te deixou me atrapalhar na contemplação de tamanha perfeição? Você por um acaso é filósofa? Impossível, você é uma mulher..
C - Não.. E ah, meu filho, eu sou de um tempo em que mulheres fazem muito mais do que supõe a sua vã filosofia [riso malicioso] Mas eu estou aqui por outro motivo: quero que você devolva as minhas ideias!
P - Quê?! Devolver suas ideias? Mas eu não tenho nada a ver com as suas ideias...
C - Como não? Você é o dono desse mundo aqui, o mundo onde habitam as ideias e, ultimamente, tenho tido um seríssimo problema com essas danadinhas. Eu tenho ideias ótimas e, antes de poder materializá-las, elas simplesmente somem. Imagino que voltem pra cá, de onde vieram, pra longe do meu alcance. Quero elas de volta!
P - Ah, você quer dizer que não consegue levar paro o mundo sensível essas maravilhas do mundo das ideias? Pois, então: bem-vinda ao clube, minha jovem! Você sabe, a grande mágica de uma ideia é que ela é uma ideia. A perfeição só existe aqui, na realidade imutável e eterna; você só será capaz de sentir a plenitude de uma ideia ao contemplá-la. A materialização é uma cópia do ideal...
C - Ah, que saco! Não é disso que eu to falando.. Eu consigo levar ideias ótimas pro mundo material e ainda manter grande parte da sua beleza, mas é que algumas ideias tem fugido, entende? Eu simplesmente me esqueço do que é que a fazia tão perfeita... Só pode ser arte sua! Você usa da vaidade delas pra atraí-las pra cá, onde elas podem simplesmente não ser desgastadas pela materialização e ainda são contempladas e admiradas... Eu vim aconselhar que você pare já com isso!
P - [gargalhada histérica] HAHAHAHAHA Primeiro: não existe meio de se materializar uma ideia mantendo sua qualidade, você está me dizendo fantasias da sua cabecinha amadora. Segundo: se uma ideia foge da sua mente é porque você não foi competente para compreendê-la e imprimi-la na sua mente limitada, onde não cabe a pureza de uma ideia. E, finalmente, terceiro: você disse "arte minha"? Qual é! Arte é uma grande bobagem, eu jamais desprenderia meu tempo fazendo cópias de cópias de ideias enquanto posso estar aqui, em profunda contemplação... [ele suspira extasiado]
C - Eu TÃO discordo de você, Platão...
P - QUÊ?!
C - É, discordo... De que adianta ficar aqui circundando todas essas ideias e contemplando sua magnitude se isso jamais vai se tornar real, tocável, aproveitável?
P - Você está dizendo que as ideias são inúteis?! Isso é uma afronta!
C - Estou dizendo que ideias no mundo das ideias são inúteis.. De nada servem no mundo real. É preciso materializá-las pra que elas possam de fato exercer alguma influência palpável.
P - [chocado] Oh... O.o
C - E mais, essa história de que a arte é uma bobagem, cópia da cópia.. Isso é uma grande ignorância, ao meu ver. A arte é a objetificação do sentimento, e o sentimento é uma ideia que se prende dentro da gente, uma ideia que não é perfeita, mas confusa...
P - [furioso] O QUÊÊ?! Mas como ousa? Primeiro me acusa de roubar suas ideias: eu não tenho culpa que você seja incapaz de depreender a essência magna das ideias ! Daí me vem com papinho de que as ideias são inúteis: é você quem não sabe interpretá-las! Depois me ataca dizendo que sou ignorante.. E ainda é em defesa das artes! Ora!
Então o filósofo me empurrou bruscamente e minha biga arrancou, meus cavalos arredios.. Em total desequilíbrio, meu corpo oscilava de um lado para o outro enquanto meus olhos fitavam a ira nos olhos de Platão, eu podia sentir o seu orgulho ferido; o homem exalava o rancor de ter sido ofendido... O imperdoável galope dos meus cavalos não ajudava muito para que eu conseguisse me manter em compostura, logo, desabei. Via aquela órbita de ideias reluzentes rodeada por bigas entusiasmadas, a visão era cada vez mais distante... Sentia a sensação da queda e não sabia nem contra o que, tampouco como seria o impacto. E quando eu já não podia mais avistar aquele fantástico mundo de perfeição, acordei assustada, num despertar desconfortável daqueles de quando sonhamos com uma queda. Não.. ainda não encontrei minhas ideias...

3 comentários:

  1. PRIMEIRO UM POUCO SOBRE O NOSSO QUERIDO PLATÃO:


    Entre todos os discípulos de Sócrates, o mais importante continuador de sua obra e que viria a superar os passos do próprio mestre, ao fazer a primeira sistematização do pensamento filosófico, foi Platão (428 a.C. - 347 a.C.).

    Nascido em Atenas ou na localidade próxima de Egina, Arístocles (seu nome de batismo) veio ao mundo em uma família politicamente importante. Seu pai era descendente de Codro, o último rei de Atenas, e sua mãe teve entre seus antepassados o famoso legislador ateniense Sólon e possuía parentesco com Crítias e Cármides, dois dos Trinta Tiranos que governaram a cidade após a guerra do Peloponeso.

    Em suas primeiras décadas de vida, os interesses de Platão ainda não eram filosóficos. Inicialmente ganhou fama como um exímio lutador, advindo daí o apelido pelo qual o conhecemos até hoje (Platão, do grego plato, significa plano, mas também “largo” e “amplo”; ao que consta, era uma referência ao seu porte físico). Conseguiu alguma fama ao vencer os Jogos Ístmicos, embora não tenha conseguido chegar aos Jogos de Olímpia. Pouco depois tentou investir em carreira literária, mas seu sucesso foi limitado. Por fim, decidiu estudar a filosofia de Sócrates.

    Após a morte de seu mestre, Platão partiu em longas viagens, nas quais seu pensamento filosófico se tornou mais maduro e refinado. Prova disso foram as ideias que desenvolveu em suas obras, as quais foram escritas em forma de diálogos, quase sempre tendo Sócrates como personagem principal.

    Dentre todos os diálogos platônicos, aquele que talvez sintetize com mais clareza o ponto central de sua filosofia tenha sido Timeu. Nesta obra, Platão estabelece a famosa diferença entre o mundo sensível (o mundo concreto no qual vivemos) e o mundo das ideias — eidos, em grego.

    Segundo sua descrição, no início dos tempos, havia apenas as ideias — o Bem, a Verdade, o Humano, etc — até que um ser supremo, chamado Demiurgo, decidiu criar coisas a partir das mesmas. Essa teria sido a origem do mundo e de tudo que há nele (as pessoas, as sociedades, os costumes, e assim por diante). Para Platão, as obras do Demiurgo foram ricas, porém imperfeitas: baseavam-se em ideias perfeitas, mas eram apenas cópias.

    A partir daí, segundo o filósofo, qualquer compreensão adequada sobre as coisas do mundo sensível deveria abstrair as suas imperfeições e chegar até a sua essência, chegar até o seu ideal. Por exemplo: no mundo existem diversos tipos de cães – grandes, pequenos, claros, escuros, etc — mas apesar das diferenças, todos eles são cães, ou seja, todos têm em si a essência do que é um cão.

    O mesmo raciocínio vale para os valores humanos. Enquanto os sofistas afirmavam, por exemplo, que justiça e injustiça eram meras convenções, Platão dizia que na verdade elas pareciam convenções porque havia muitas concepções diferentes de justiça; mas, se comparássemos todas elas e deixássemos de lado suas diferenças para olhar apenas o que nelas havia em comum, surgiria daí a essência do que era a Justiça.

    Essa noção platônica de mundo sensível e mundo inteligível marcou época em toda a filosofia posterior e além, influenciando até mesmo muitos pensadores do cristianismo como Santo Agostinho. Porém, como nada em filosofia é isolado, cabe dizer que Platão teve duas grandes inspirações: Sócrates, através de seu método dialético e Pitágoras, através da sua noção de que além das aparências havia sempre uma essência simétrica, perfeita e harmoniosa (no caso pitagórico essa essência eram os números).

    No fim de sua vida, Platão criou a primeira instituição filosófica da história. Comprou, nos arredores de Atenas, uma propriedade onde recebia discípulos para debates. Situada num lugar chamado Jardins de Academos, passaria à história como a Academia.

    Luciano Vieira Francisco
    Colaborador Brasil Escola
    Graduado em História pela Universidade Cruzeiro do Sul – UNICSUL
    Especialista em Formação de docentes para o ensino superior no Centro Universitário Assunção – UNIFAI
    Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo - USP

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  2. AGORA ANALISE DA VERACIDADE COMO PEDIDO:

    Cara Calíope, este teu diálogo me espanta, e muito... a forma está deliciosamente fantástica de ser contemplada, (re)citando nossa querida Lena... você é uma escritora nata... Teu nome já previa. REVEJA EM

    http://www.infopedia.pt/$caliope-(mitologia)

    Contudo existe algumas falhas na compreensão em relação ao Mundo das Ideias de Platão, o mundo sensível (material) e o mundo das artes (Fato normal SE os únicos contatos que você teve com estes conceitos foram advindos das minhas aulas - que visam MATAR E ANIQUILAR questões de vestibular - dai obviamente não poderíamos cobrar de ti, minha querida, um profundo entendimento dum filósofo tão complexo.

    Já postei um texto que explica a relação do mundo das ideias com mundo sensível (brevíssimo por sinal), mas caso você queira se aprofundar nesse ponto leia a obra "Timeu" de Platão

    http://temqueler.files.wordpress.com/2009/12/platon-timeo.pdf)

    DESSE SITE ( http://temqueler.wordpress.com/) que tem um moooooooooooooooooooonnntão de livros ótimos)

    Descontando os pontos que estão contra ti minha cara (problemas na compreensão da demiurgia platônica), creio que, se você reescrever esse seu "rascunho", sem dúvida ele será dará um FORTÍSSIMO peso para o livro de contos e/ou anedotas que você já está escrevendo... sim pois, teus escritos depois de revisados por ti mesma poderão ser publicados, e sem dúvida alguma agradarão mentes perspicazes como a tua!

    Forte abraço.

    André =P

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  3. Outro ponto relevante... Já esqueceu do meu comentário no qual citei Diótima???

    Leia a primeira parte como castigo!!! >:(

    http://www.nova-acropole.pt/a_amor_socrates.html

    PLATÃO E SEU AMANTE, QUERO DIZER... MESTRE SÓCRATES NÃO MENOS-PREZAVAM A MULHER EM RELAÇÃO AO HOMEM, INCLUSIVE SÓCRATES DEFENDIA QUE UM ESCRAVO PODERIA SER TER RACIONAL QUANTO UM CIDADÃO ATENIENSE BEM FORMADO, QUANDO BEM ORIENTADO (MAIÊUTICA).

    BJO ATÉ...

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Tá pensando no que eu tô pensando? Me diz aí!! (: